Morte em Palomas (8/23)
Freio de arrumação
O delegado René Manhãs sabia o que devia fazer: alguns interrogatórios consistentes. Sem corpo, não há prova definitiva. Com muitos corpos, pode não haver definição de provas. Palomas estava sob o impacto de cinco assassinatos em nove dias. Ele precisava tirar tudo de Libório, o guri que o levara até o cadáver da linda Gisele, do Dr. Adair, marido da amante de um dos assassinados, e de Josias, namoradinho de Gisele, que continuava prometendo vingança pelos bares. Mas uma força estranha, que sempre o acompanhava nas investigações mais complexas, o fez sair para um passeio reflexivo. Era incrível a facilidade com que passava da cadeira de rodas para o volante do seu carro adaptado. Nada, porém, apagava as marcas do episódio que lhe custara o andar.
A chuva o pegou menos de meia hora depois que começara a rodar. Estava no alto do Cerro de Palomas, de onde avistava o aglomerado de casas, o cemitério, as ruas, outros morros distantes e as nuvens atropelando-se no céu. Colocou um cigarro na boca, mas não o acendeu. Contentou-se com um chiclete. Palomas era um mundo. Tinha seus personagens. O presidente da Câmera de Vereadores conseguira na justiça uma liminar para continuar comandando a casa apesar de ter sido flagrado escondendo dinheiro nas meias e de ter assinado atos secretos dando emprego a 17 dos seus 19 parentes mais próximos. Um cunhado não foi beneficiado por não ser parente. E um primo por ser da oposição e por torcer pelo Uruguai. Manhãs era um racionalista, um homem de método, mas não desprezava a sabedoria popular. Desceu do cerro e foi direto à casa de Gumercindo, conhecido como o oráculo de Palomas, o vidente que só prevê o previsível, o que o poupa de erros, de “micos” e de arrependimentos.
Guma o recebeu com amabilidade. Como para mostrar que estava com o olhar sobre o futuro aguçado, disparou:
– Sarney nunca será derrubado.
– Hummm....
– Esse Plano de Direitos Humanos é conversa fiada para agradar a turma que vota na Dilma.
– Hummm...
– A eleição será decidida entre Dilma e Serra.
– Hummm...
– Lula vai voltar em 2014 para mais oito anos.
– E aqui no Rio Grande do Sul, Guma, quem leva?
– Não estou vendo bem. Melhor aguardar as pesquisas.
René Manhãs sorriu. Tomou mais um mate e resolveu continuar seu caminho apesar da chuva. Quando já estava no carro, ouviu o oráculo dizer com sua voz de trovão:
– O pior cego é aquele que só vê o que quer.
– Que quer dizer?
– Ora, que é uma questão de método.
– Sei, mas qual?
– Quem sabe o do freio de arrumação?
– Freio de arrumação?
– Também conhecido como “tranco”. Põe tudo no lugar.
Manhãs acelerou balançando a cabeça. Guma enxergava tanto quanto os melhores analistas políticos. Jurava que acertaria na mega-sena. Na última, emplacara dois números. O delegado foi direto à casa do cego Borges.
Precisava ver mais longe do que um goleiro na hora do crime.