Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (9/23)

Morte em Palomas (9/23)

O velho Borges

Chovia muito forte quando René Manhãs estacionou na frente da casa branca do velho Borges.
Trazia na mente as cinco mortes que estavam abalando Palomas.
Os depoimentos mudavam de um dia para outro.
Parecia que estavam brincando com ele ou tentando levar à mídia ao ridículo.
A imprensa já tinha designado culpados.
Tudo o que parecia certo, porém, virava dúvida de uma instante para outro.
Que se pode dizer ou pensar quando uma adolescente leva 15 tiros à queima-roupa e quatros homens têm suas línguas e seus pênis arrancados?
Manhãs tinha visto de tudo na sua vida de policial: uma filha universitária, aparentemente delicada e feliz, mandar executar os pais a pauladas e depois ir para o motel com o assassino. um marmanjo manter relações sexuais com meninas, suas enteadas, de nove e dez anos, deputados esconderem dinheiro nas meias e nas cuecas, ministros da mais alta corte de justiça e senadores se tratarem de chefe de capangas e de coronel cangaceiro e nove edições do Big Brother. Mesmo assim, não se acostumava. Todo santo dia, perguntava-se: Por que as pessoas aceitam tudo isso?
A casa, com suas janelas azuis, parecia um túmulo. O aguaceiro batia nas vidraças dissimulando um vulto.
O cego, como sempre, permanecia colado ao vidro da sala. As suas pernas entravam no solo como raízes espraiando-se pelos campos. Quebravam paredes, elevavam-se feito rugas, derrubavam passantes distraídos, serviam como armadilhas para capturar bichos silvestres. Podiam ser vistas disputando espaço atrás do curral com os umbus. Na velha casa, em torno da cadeira de Borges, instalada em meio a pilhas gigantescas de livros, o limo alastrava-se deixando pegadas de insetos e de lagartixas. Diz-se que chove eternamente sobre a casa do velho e cego Borges.
Era o tempo.
O delegado colocou sua cadeira no chão enlameado do pátio e transportou suas pernas e o seu corpo para fora do carro. Subiu a rampa e empurrou a porta da frente. O corredor era um túnel levando para outro mundo. Manhãs cruzou com pinguins de porcelana, caixas de maizena empoeiradas, velhos almanaques cheios de orelhas, vidros de biotônico Fontoura e até uma bela edição encaderna de Alice no país das maravilhas. Borges o recebeu sereno.
– O que procura?
– Ver melhor.
– Veio ao lugar certo então.
– Preciso ver longe e claro.
Borges riu. Seu rosto era um pergaminho. Disse:
– Para ver bem é preciso, muitas vezes, fechar os olhos.
– Uma menina foi assassinada, Borges. Depois, quatro homens. Um deles, o infeliz, tinha o hábito de ocupar o corpo ainda rijo da mulher de um doutor entediado.
– Nenhum marido seria mal-agradecido a ponto de mandar matar quem lhe poupa de certos sacrifícios.
– Não sabia que era cínico, Borges.
– Não sou é cego.
– Não?
– Só não enxergo.
– Acha que não foi ele.
– Não por ela.
– Já sabia?
– É sempre a mesma história.
Manhãs saiu no escuro.