O homem vai cada vez mais longe atrás das belezas naturais. Vai e leva junto os seus artifícios, seus brinquedos, seus carrões e seus edifícios luxuosos.
Sempre que vou à Barra da Tijuca, essa Miami brasileira mais pomposamente brega, como uma música de Wando mal-interpretada, redescubro essa relação. Assim como existem as últimas fronteiras agrícolas a serem desbravadas, existem as últimas fronteiras naturais a serem ocupados pelos que possuem muito dinheiro. O Recreio dos Bandeirantes é a Barra depois da Barra, a pós-Barra, a Barra dentro da Barra, mas já um passo para fora da Barra.
O curioso nessa comovente declaração de amor à natureza, mesmo morando distante do local de trabalho e não necessariamente tendo helicóptero, é saber que são os habitantes desses parques (condomínios) naturais hipermodernos.
Os jogadores de futebol estão entre os principais representantes dessa fauna entre o mar e os morros, a areia e o verde, o líquido e o concreto.
Por quê? Por amor ao bucólico ou por sentimento tribal – estar entre os iguais num lugar praticamente sem desiguais – ainda que no Rio de Janeiro sempre haja cantinho de cartão postal para os menos iguais?
Um motorista de táxi tem uma hipótese que dispensa sociologismos: "Para morar perto dos centros de treinamento e das atrizes gostosas".
Pode ser. Deve ser. Talvez até para ter alguma privacidade num espaço de personalidade absolutamente públicas, um reality show tamanho natural, com direito até a filmagem dentro da filmagem, algo como a obra dentro da obra, essas coisas que os especialistas chama de metalinguagem, esses nomes assim pomposos.
A Barra da Tijuca tem sua réplica da estátua da Liberdade, tem a sua liberdade como réplica de Miamia, tem seus astros com pouca roupa e tem até os seus pobres de bem com a vida.
Tudo isso como uma reserva humana junto a uma reserva natural no Rio de Janeiro, quer dizer, oficialmente no Rio de Janeiro, mas um passo aquém ou além do Rio de Janeiro, um pós-lugar.
Para onde irão os ricos quando o Recreio já lhes parecer saturado, próximo demais, excessivamente urbano?
Tenho certeza de que eles saberão se virar.
Pobres!
Condenados a avançar eternamente em busca do paraíso natural capaz de servir-lhe de abrigo artificial. Alguns, os mais aquinhoados, protegidos por muros intransponíveis e espessos vidros à prova de tudo, inclusive, segundo os exagerados ou ressentidos, de contato com a vida.
Deve ser só uma lenda, um mito urbano.