Juremir Machado da Silva

Mulheres de histórias

Narrativas lendárias

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Ela tinha 21 anos. Sabia ler e escrever numa pátria de analfabetos. Andava de cabeça e erguida e dizia não aos homens que a cortejavam. Também o rei quis tê-la na sua cama. Foi trazida ao palácio sob escolta. O monarca, conhecido por sua brutal objetividade e falsa generosidade, foi direto ao ponto:

– O quer quer para ser minha?

Era, de certo modo, uma concessão.

O rei costuma tomar o que queria. Mas certa vaidade o obrigava, no caso, a negociar. Desejava vê-la ceder ao seu capricho.

– Não quero ser sua – ela disse.

O rei refez a sua pergunta com ar irônico:

– O que quer da vida?

– Liberdade, igualdade e direito ao amor – ela respondeu.

– De que liberdade fala?

– Liberdade para escolher quem eu quiser.

– Quer ser igual a quem?

– Aos homens livres.

– Quem são os homens livres?

– Os que têm direito a escolher os seus amores.

O rei declarou-se apaixonado e mandou decapitá-la.

*

O Brasil acabava de ganhar o tricampeonato de futebol no México. Ela voltou da cidade radiante. Tinha 33 anos e sete filhos. Anunciou ao marido prontamente:

– Não vamos ter mais filhos em pencas.

O homem fechou a cara temendo ficar sem sexo:

– Deus é quem sabe disso.

Ela não se impressionou:

– Deus deu a ciência aos homens.

Disse isso e mostrou uma cartela de pequenas pílulas. O homem não entendeu. Ela explicou pacientemente. Ele não acreditou. Então, solene, ela disse:

– Depois disto o mundo nunca mais vai ser o mesmo. E vai ser melhor.

– Melhor para quem?

– Para a humanidade.

*

No povoado, a escola era deserta. Os meninos deixavam cedo de estudar para trabalhar com os pais nas lavouras. As meninas ficavam em casa ajudando as mães. Emiliana tinha quatro filhas: uma de 11, uma de 9, uma de 7 e outra de 5 anos. Certa manhã, tirou as filhas cedo da cama, fez que vestissem as melhores roupinhas do armário pobre e saiu com elas na direção do colégio.

Quando retornou, sem as meninas, o marido esperava no portão:

– Que fizeste com as minhas filhas?

– Tirei elas da escuridão.