Mulheres pos-modernas e com fome
Médicos da PUCRS convidaram-me para falar sobre comportamento na pós-modernidade. Poderia resumir tudo ao verbo dos jovens: ficar. Relações efêmera, sensações intensas, identificação no lugar da identidade. A pós-modernidade, no entanto, acabou. Tornou-se uma hiper-modernidade. Por aceleração e subtração. Aceleração do que desaparece. Por exemplo, a vergonha na cara dos políticos. Subtração dos fundamentos. Morte da obra. Onipresença do autor. A obra como mero pretexto para a difusão viral e desejada do autor em tempo real. Efeito absoluto de assinatura. Chico Buarque por Chico Buarque. Ivo Pitanguy na Academia Brasileira de Letras.
O livro para justificar os autógrafos e as entrevistas do autor.
Exemplo de hipermodernidade como comportamento padrão expresso na mídia. Matéria na Folha de S. Paulo: “As mulheres estão famintas, mas têm medo da comida”. Segundo a psicanalista inglesa Susie Orbach, “as mulheres perderam a noção do que é uma dieta normal”. A palavra “normal” transformou-se num preconceito, uma demonstração de etnocentrismo. Susie Orbach disse mais: “As mulheres estão famintas, mas têm medo de comida (...)
"Produtos com a palavra ‘orgânico’ na embalagem têm mais interesse no seu dinheiro do que na sua saúde". Sentir forme gera culpa. Depois da orgia liberatória dos anos 60, quando a emancipação virou um horizonte acessível, para usar a expressão de Jean Baudrillard, a pós-orgia.
Da dominação masculina à obrigação de ser bela.
Susie Orbach ataca: “Essa é uma cultura que atinge a todas nós. Fomos criadas por mulheres que tinham obrigação de serem lindas em tempo integral. Isso afeta a maneira como nos relacionamos com nossos corpos e com os de nossas filhas”.
Gilles Lipovetsky, pensador dos paradodxos da pós e da hipermodernidade, completa: “A obsessão de si, hoje, manifesta-se menos pela febre de prazer e de gozo que pelo medo da doença e da idade, a medicalização da vida. Narciso está menos apaixonado por si mesmo que aterrorizado pela vida cotidiana; seu corpo e o ambiente social parecendo-lhe mais agressivos. O neo-individualismo não se reduz ao hedonismo e ao psicologismo, mas implica, cada vez mais, um trabalho de construção de si, de tomada de posse do seu corpo e da sua vida”.
Como ser livre e corresponder aos padrões?
Michel Maffesoli, pensador da pós-modernidade, sugere que desconfiemos dos intelectuais que enxergam o mal, o medo, a doença, o pior e o horror por todos os lados: Segundo ele, vivemos “uma ética, às vezes, imoral, que se exprime nas numerosas efervescências que pontuam a vida social. Estamos no âmago de uma estética a ser compreendida em seu sentido mais amplo. A saber, o compartilhamento das paixões e emoções coletivas”.
Moral à la carte.
Tribos efêmeras.
Atmosfera, atmosfera...
Só há uma certeza: estamos na incerteza.