Juremir Machado da Silva

Mulheres vivem mais

 Homens morrem antes

     Afinal, o que a natureza tem contra nós, homens? Não paramos de correr atrás das mulheres, desde pequenos. Por fim, elas nos enterram. Pode até ser que seja uma vantagem para nós ter quem se ocupe de nossas carcaças na despedida. Nos saguões dos hotéis de cidades litorâneas, grupos de barulhentas senhoras idosas revelam esta verdade científica: mulheres vivem mais. Um otimista tentou outra hipótese: homens preferem ficar em casa.

As mulheres chegam a viver dez anos mais do que os homens. Essa longevidade não se deverá ao fato justamente de que os homens morrem antes? Explico para os mais apressados e zombeteiros: será que elas viveriam mais dez anos se continuássemos dando trabalho a elas? Esse plus não será uma espécie de compensação pelos anos que nos aturaram? Damos muito trabalho. Tem alguma coisa mais vulnerável do que homem doente? Mulher se vira. Homem desaba por causa de uma gripe, de unha encravada ou dor de barriga. Exceções não serão consideradas neste ensaio.

Algumas explicações dão bastante o que pensar: homens correm mais riscos, homens se cuidam menos, homens se estressam mais, homens não sabem o que fazer quando chega a aposentadoria, homens não estão preparados para a velhice. Pode ser. A minha hipótese é outra. É importante sempre se ter algum dinheiro no bolso, para o ladrão, e uma hipótese à mão para uma conversa de bar. Eis a minha: homens são culturalmente objetivos demais. Homem, quando tem de comprar algo, entra na loja e vai direto ao produto. Não escolhe, não compara, não sente prazer em olhar, não se diverte, não investiga, não usa o tempo para gozar. Se tem de morrer, então, vai lá e morre logo.

A ciência vê de outra maneira segundo a BBC: “Cientistas da Universidade do Alabama afirmaram, em artigo recente na revista Gerontology, que ‘essa consistente vantagem de sobrevivência das mulheres em comparação aos homens (...) é observada em todos os países, em todos os anos em que há registros confiáveis de nascimentos e óbitos. É provavelmente o padrão repetitivo mais robusto da biologia humana’”. Que coisa! Esse perseguição, como se vê, é antiga e universal.

O escritor argentino Ricardo Piglia, que morreu recentemente de Ela (Esclerose Lateral Amiotrófica), fez uma frase que não canso de citar: “Os paranoicos também tem inimigos”. Os inimigos, claro, também têm paranoias. Terá a natureza alguma razão para perseguir os homens? Será uma vingança contra essa nossa obsessão bem masculina e cartesiana por controlar o mundo natural? O símbolo mitológico da dominação é o falo, a espada. O emblema da reprodução e da fertilidade é a concha, a taça. Segundo o antropólogo Gilbert Durand, o regime imaginário diurno é fálico.

Já o noturno é feminino.

Homens morrem antes.

Parece um bom título para uma tese sobre a guerra dos sexos intermediada pela natureza.

De minha parte, aceito esse estado das coisas: não saberia mesmo viver sem a Cláudia. Só não tenho pressa.

A vida moderna é coma as lojas: tem cadeiras para homens.

Quero esperar sentado.

Não me importa de aguardar na fila.

Nem de ser o último a receber atendimento.