Por Luiz R. Malabarba
Presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia
Coordenador Programa de Po´s-Graduac¸a~o em Biologia Animal e Vice-diretor Instituto de Biocie^ncias, UFRGS
No domingo, dia 2 de setembro de 2018, ficamos todos chocados com as cenas transmitidas ao vivo da incinerac¸a~o do Museu Nacional e de seu acervo. Este choque passou a ter maior releva^ncia no meio jornali´stico e para a populac¸a~o em geral quando passaram a ser divulgadas informac¸o~es acerca da possi´vel perda de mais de 20 milho~es de pec¸as em seus acervos.
Uma das perguntas mais ouvidas na cobertura da trage´dia foi “o que de importante que foi perdido?”, escolhendo-se um ou listando alguns itens como resposta. A maior perda no ince^ndio, no entanto, foi a perda do conhecimento que ainda na~o havia sido descoberto!
Museus sa~o bibliotecas de livros e artigos que ainda na~o foram escritos. Na~o sa~o depo´sitos de coisas antigas e sem serventia, mas sim fontes permanentes de informac¸o~es que precisam ser descobertas ou reinterpretadas a` luz de novos paradigmas ou novas tecnologias. Museus possuem os mais diversos acervos, colhidos ao longo de de´cadas ou se´culos e que sa~o insubstitui´veis, e que nos permitem contar a histo´ria da Terra, dos seres vivos, da nossa pro´pria espe´cie, da evoluc¸a~o da nossa cultura e as vezes de nosso pro´prio decli´nio.
Museus sa~o como formigueiros, construi´dos ao longo do tempo com o colecionamento de milhares de pec¸as, cada uma adquirida, coletada, preparada e pesquisada por um especialista diferente – suas formiguinhas. E sa~o inconta´veis as formiguinhas de Universidades, Institutos de pesquisa e de outros Museus de todo o mundo (estudantes, pesquisadores, curadores, professores) que passam pelos Museus constantemente para analisar, estudar e fazer novas descobertas com cada uma destas pec¸as ja´ existentes. O ince^ndio do Museu Nacional choca a populac¸a~o pela perda do acervo, mas certamente choca mais profundamente aquelas formiguinhas que dedicaram suas vidas a` construc¸a~o do acervo, que as vezes conhecem cada pec¸a e seu potencial para novas descobertas e projetos futuros, bem como para o desenvolvimento de novas teses na formac¸a~o de nossos mestres e doutores.
Mas na~o sejamos inge^nuos, as perdas no Museu Nacional refletem o descaso com a cultura, com a cie^ncia e com o patrimo^nio nacional. Autoridades nas diferentes esferas se alvoroc¸am em garantir recursos para a reconstruc¸a~o do Museu Nacional apo´s o ince^ndio, e esperamos que realmente o fac¸am, mas na~o ouvimos propostas claras ou a discussa~o de poli´ticas nacionais para cie^ncia, tecnologia e preservac¸a~o de acervos. Sa~o discursos vazios. Basta relembrarmos os recentes ince^ndios do Instituto Butanta~ (2010), do Museu da Li´ngua Portuguesa (2015) e da Cinemateca Brasileira (2016).
Paradoxalmente aos discursos ouvidos apo´s o triste episo´dio de perda de acervos do Museu Nacional, que podemos atribuir ao descaso e falta de recursos, encontramos um exemplo sui generis no estado do Rio Grande do Sul, onde a extinc¸a~o da Fundac¸a~o Zoobota^nica, de seu Museu de Cie^ncias Naturais e de seu acervo e´ poli´tica de estado. Indiferente a`s manifestac¸o~es pu´blicas da comunidade cienti´fica acerca da releva^ncia destes o´rga~os e de seus acervos na~o so´ para a cie^ncia, mas tambe´m para a educac¸a~o, a documentac¸a~o, a gesta~o e a conservac¸a~o da biodiversidade, o governo rio-grandense persiste em uma cruzada pela sua extinc¸a~o. O fo´sforo foi aceso ha´ dois anos, com o envio do projeto de lei de extinc¸a~o e a sua aprovac¸a~o na Assembleia Legislativa do estado, e desde enta~o a Fundac¸a~o Zoobota^nica, seu Museu de Cie^ncias Naturais e seus acervos vem sendo cozidos a fogo lento. Surpreendentemente, um dos principais motivos acolhidos pela justic¸a para a suspenc¸a~o das tentativas de extinc¸a~o e´ justamente a falta de apresentac¸a~o por parte do Estado de um plano que garanta a manutenc¸a~o dos acervos. Tra´gico, na~o?
O episo´dio do Museu Nacional e´ triste para os estudantes e profissionais que la´ trabalham, para estudantes e pesquisadores do mundo inteiro que dependem de informac¸o~es contidas em seus acervos, para todos os brasileiros pela demonstrac¸a~o de descaso pela cie^ncia e pela nossa histo´ria, e para o mundo pela perda de um patrimo^nio antropolo´gico, arqueolo´gico, geolo´gico, paleontolo´gico, bota^nico, zoolo´gico e histo´rico que na~o pertence ao Brasil, mas a` humanidade. Espera-se uma unia~o de toda a Sociedade na reconstruc¸a~o de um Museu Nacional digno de seu status e de sua histo´ria.
Aproveitemos enta~o esta cruel oportunidade para discutirmos e revermos nossos valores como Sociedade com relac¸a~o ao nosso patrimo^nio cienti´fico e cultural, bem como para cobrar de nossos governantes medidas efetivas para sua protec¸a~o, e na~o para sua destruic¸a~o ou perda. Esperemos tambe´m que a indignac¸a~o causada pelo ince^ndio no Museu Nacional traga um pouco de lucidez aos poli´ticos gau´chos, abolindo de vez a ideia de extinc¸a~o da Fundac¸a~o Zoobota^nica, seu Museu de Cie^ncias Naturais e seus acervos. Maior vergonha do que perder patrimo^nio pelo descaso, e´ perde^-lo por uma poli´tica de estado.