Nós, os energúmenos
capa

Nós, os energúmenos

#somostodosenergumenos

publicidade

Vibrei muito em 2019. Cheguei a acreditar que o Internacional seria campeão. Faz três anos que o colorado não levanta taça. Uma eternidade. Vibrei com livros, filmes e pessoas. Vibrei inesperadamente com o Coringa, apesar da sangueira. Vibrei com “Vila sapo”, livro do gaúcho José Falero. Vibrei com um documentário chamado “Estou me guardando pra quando o carnaval chegar”, dirigido por Marcelo Gomes, sobre uma cidade do nordeste que vive da produção de jeans, trabalhando sem parar, salvo em fevereiro. Mas vibrei mesmo foi com a pirralha. Aos 16 anos de idade, eleita personalidade do ano pela revista “Time”, a pirralha sueca Greta Thumberg nocauteou presidentes de países poderosos, ironizou capitães e topetudos, matou a pau.

      Quando Jair Bolsonaro a chamou de pirralha, ele incorporou a palavra, em português mesmo, na sua “bio” da rede social. Quando o estressado Donald Trump a mandou relaxar, ela adotou o mesmo procedimento. Foi divertido. Dois velhotes fanfarrões tomando um baile de uma menina inteligente, ágil e com razão. A força da pirralha emana dessa coisa tão simples: ela está certa. A melhor afirmação da pirralha foi esta, em discurso na ONU: “Não haverá nenhuma solução ou planos apresentados com base nestes números que trago aqui hoje. Porque estes números são bem desconfortáveis e vocês não têm a maturidade suficiente para abordar este tema como ele realmente é”.

      A pirralha chamou a velharia toda de imatura. Sem dó nem piedade. Show! Foi no âmago: “Como vocês se atrevem a pensar que isto pode ser resolvido sem mudar nada? Ou através de algumas soluções técnicas?” Dava para ouvir os tecnocratas rangendo os dentes, mastigando explicações pomposas sobre suas medidas técnicas em nome do desenvolvimento econômico dito responsável. Precisava uma guria assim aqui neste Rio Grande do Sul. Acostumados a dar carteiraços, protegidos por suas gravatas, os dirigentes do mundo não sabem como lidar com uma menina assim, que os desmascara, ridiculariza, desnuda.

            O que diria a pirralha da reforma do código ambiental aprovada às pressas no parlamento gaúcho, sem passar pela comissão de Meio Ambiente, com 75 modificações apresentadas na hora de votar? O senso comum engana-se. É no fim do ano que as medidas mais duras são votadas. O ciclo Fronteiras do Pensamento bem que podia convidar a pirralha para palestrar em Porto Alegre. Será que ela repetiria para nossos líderes o que disse nas Nações Unidas: “E se vocês escolherem fracassar. Eu lhes digo: nós jamais perdoaremos vocês. Nós não vamos deixar vocês fazerem isso. É aqui e agora, que nós colocamos um limite. O mundo está despertando. E a mudança está chegando, quer vocês queiram ou não”. Ficariam assustados? Ririam dela? Bocejariam?

      A pirralha me representa. Fez dois marmanjos que adoram brincar de arminha beijar a lona. Manteve a calma. Não se intimidou. É incrível como ter razão não depende de idade. De quebra, a guria ensinou supostos especialistas como usar redes sociais. De que a pirralha brinca? De dizer a verdade e calar a boca dos poderosos. Vibrei com a escolha de Ricardo Galvão pela Nature como um dos cientistas do ano. Vibrei quando li Paulo Freire. Sou um energúmeno.