Na Feira do Livro
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Na Feira do Livro

Mesa com franceses e autógrafos de Acordei Negro

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Olha ela aí outra vez. É a 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, com Marô Barbieri de patrona. Tudo está no seu lugar: árvores floridas, barracas e livros. Estou dentro. Neste sábado, já na abertura dos trabalhos, às 16h30, no Centro Cultural Erico Verissimo, coordeno uma mesa com um francês, Philippe Joron, e dois italianos, Vincenzo Susca e Fabio La Rocca, todos professores da Universidade de Montpellier. Tema: Cidade, Imaginário e Cotidiano – de 2013 no Brasil aos coletes amarelos franceses. O pessoal veio a Porto Alegre para os 25 anos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Participar da Feira do Livro já parte do pacote.

      O assunto é quente e com margem para polêmicas. Vai transbordar possivelmente para as manifestações no Equador e no Chile. E ainda as eleições na Bolívia, na Argentina e no Uruguai. Por que o mundo está em ebulição? É o que vamos encarar, analisar, tentar debulhar. Depois, às 18h30, no Pavilhão de Autógrafos, assinaremos nossos livros. Eu lanço meu romance “Acordei Negro” e autografo também “Ser feliz é tudo que se quer”. O sociólogo Philippe Joron autografa “A vida improdutiva”. Fabio La Rocca, “A cidade em todas as suas formas”. Vincenzo Susca, “As afinidades conectivas: para compreender a cultura digital”. Programa completo.

      No domingo, também no Centro Cultural Erico Verissimo, às 16 horas, o editor da Sulina, Luis Gomes, desembarcando de quase um mês na Europa, o escritor e editor Luiz Maurício Azevedo e eu abordaremos um tema provocativo: quem manda no campo literário? Que é dono do campinho? Quem faz as leis, distribui os prêmios, diz quem presta e quem não presta? Com que critérios, parâmetros, estratégias, autoridade, autonomia, interesses? Não há paz nesse domínio cercado, muitas vezes, com arame farpado. Luta-se corpo a corpo por um palmo de reconhecimento. A competição bate facilmente a cooperação. O silêncio costuma ser uma arma letal contra concorrentes.

Não há inocência nesse espaço de enfrentamento. Prêmios são troféus de guerra distribuídos de acordo com a força de cada combatente. Não basta a potência estética e literária. A força da editora e das suas alianças com a mídia central pode ser até mais decisiva. Pode-se vencer pelo público, vendendo muito livro, ou pelo acolhimento da crítica, com prêmios e resenhas elogiosas. Normalmente essas duas coisas não andam juntas. Quem vende, recebe críticas. Quem colhe elogios, não vende. Salvo alguns campeões internacionais de grande porte. Nenhum gesto é espontâneo.

 

Ser Feliz e Acordei Negro

 

      Chego nesta Feira com dois livros de 2019. “Ser feliz é tudo que se quer” (Sulina) entrou em circulação em janeiro, no calor do Brique da Redenção. Tento arrancar o tema da felicidade das mãos da autoajuda. Defendo que a felicidade é o tema por excelência da filosofia do século XXI, inclusive da filosofia acadêmica comprometida com a vida e não apenas com querelas hermenêuticas de especialistas. Repasso os ensinamentos e reflexos de pensadores, de Confúcio a Michel Maffesoli, sobre essa obsessão, meta, horizonte, objetivo, que é a felicidade para todos nós.

      “Em Acordei Negro” (Figura de Linguagem e Sulina) volto, onze anos depois, ao romance de ficção total. Um livro sobre racismo, a procura por Deus, razões de viver, viagens, origens, identidade, passado, narrativas, choques de percepção. Tenho várias facetas: professor, jornalista, tradutor, radialista, historiador, doutor em sociologia. Prezo muito minhas duas vertentes estéticas: romancista e poeta. Levo profundamente a sério este meu lado criador. É por ele que quero ser lembrado, especialmente por “Acordei Negro”. Quem atua em muitas frentes, sofre preconceito. Os modernos desenvolveram o culto à esterilidade. Cada um só poderia fazer uma coisa na vida. Um único e magro livro, ou qualquer obra, esculpido dolorosamente por décadas. O desejo de criar seria pecaminoso.   

      Conversa fiada. Os grandes sempre foram ecléticos. Os pequenos também. Mário de Andrade, decepcionado com os resenhistas da sua época, passou a mandar os seus livros, que pagou para imprimir durante boa parte da sua carreira, apenas para os amigos. Tanto faz. Livro é semeadura. Espalha-se a semente. Colhe-se com o tempo. Eu tenho sido feliz com meus livros. Todo dia alguém me para na rua, no ônibus, numa faculdade, por toda parte, para comentar comigo o que tenho escrito. Personagens são citados, situações são descritas. Pede-se um novo final ou um recomeço.

      “Acordei Negro” enfrenta o problema mais grave do Brasil: o preconceito racial. Como ser feliz num país racista? Escrever é algo sublime. Passo horas burilando uma frase. Deixo dormir. Retomo. Busco uma prosa poética capaz de ser clara e metafórica ao máximo ao mesmo tempo. Há na carne da palavra uma beleza que me arranca da rotina. Acordo feliz.