Jean-Paul Sartre sustentou: o existencialismo é um humanismo. Deixa ao homem à possibilidadade da escolha.
Claude Lévi-Strauss consagrou: há coisas, por exemplo, os alimentos, que são boas para pensar.
Fazer pensar.
Entre elas, a relação do ser humano com as demais espécies.
A pós-modernidade foi o dobrar dos sinais para a ideia do homem como centro do universo.
A metafísica morreu com Heidegger, o humanismo ingênuo sucumbiu de vez com Nietzsche.
O homem é mais um elemento da natureza.
Desse ponto de vista, há equivalência entre as espécies.
Essa generalização – princípio da ciência – parece pertinente.
Há generalizações pertinentes, incorretas e impertinentes.
Do ponto de vista, porém, da relação entre as espécies não há equivalência.
O homem, para ficar no tema do momento, criou o pit bull com uma raça ou sub-raça.
Pode, se quiser, extingui-la.
O pit bull pode extingir um indíviduo humano, mas não a espécie.
Só a humanidade pode ter consciência da sua relação com as demais espécies.
Só ela pode criticar os seus excessos e denunciar (autodenunciar) o especismo.
No mundo da ciência, teorias enfrentam-se permanentemente.
Se é possível considerar o especismo como um humanismo: o homem dando-se o papel principal e submetendo as demais espécie ao seu tacão violento, destrutivo, preconceituoso e condenável, também é possível, noutra matriz de pensamento, considerar o antiespecismo como um humanismo generoso, uma ação afirmativa humana em favor das outras espécies.
Os seres humanos são mais complexos intelectual e afetivamente que as demais espécies.
Só a espécie humana pode escolher se vai devorar ou cultuar outra espécie.
O humanismo não especista precisa considerar uma situação, na lógica de Edgar Morin, antagônica e complementar: o ser humano é um modesto componente de uma natureza mais forte do que ele, mas que ele pode alterar até certo limite, e, ao mesmo tempo, ele é um ser especial nesse universo natural, pois pode concebê-lo e tomar decisões sobre o conjunto de uma espécie.
As demais espécies agem por instinto.
Considerar a espécie humana como equivalente plena de qualquer outra é um antiespecismo ingênuo.
Tão ingênuo quanto a generalização impertinente, válida como boutade cética, cínica ou sintomática, de que os animais são mais confiáveis que os homens e por isso merecem uma consideração especial e um tratamento diferenciado.
A questão que se põe é: qual a natureza dessa confiabilidade?
O antiespecismo ingênuo pode representar um sentimento de culpa, o sintoma de uma dificuldade de relação com os seres humanos, um desejo de menor complexidade afetiva, a marca de trauma, um sinal de generosidade simples, trivial, legítima, mas injusta em relação aos atributos exclusivos, para bem ou mal, da espécie humana.
Só a espécie humana pode praticar o mal consciente e racionalmente.
Só a espécie humana pode praticar o bem consciente e racionalmente.
Só a espécie humana pode conceber o bem e o mal.
Só a espécie humana pode classificar os seres em espécies.
A superioridadade humana está também na sua capacidade, limitada, de escolher.
O homem, contrarariando os spinozistas radicais ou ingênuos, escolhe.
Se não escolhe, numa perspectiva determinista de programação, sente a escolha como experência de escolha.
Essa percepção o diferencia.
Só o homem pode decidir se existe uma ética dos animais.
Só o homem, como totalidade, pode decidir se vai tratar bem ou mal os animais.
Aquilo que é bom para pensar não é necessariamente bom para encantar.
O antiespecismo radical é uma contradição lógica. Ao colocar a espécie humana como equivalente a todas as outras, pressupõe que o homem pode abdicar dessa postura. Logo, reativa a não equivalência.
Moral da história: cuidar e respeitar os animais é louvável.
Uma maneira de dizer que os animais dependem de homem.
Só pode ser antipecista quem não come qualquer animal.
Restaria, no caso, um preconceito especista contra os vegetais.
Mas aí já se está a caminho da caricatura.