No sábado, depois da épica partida do Grêmio contra o Real Madrid, na qual o time do professor Renato Portaluppi perdeu com dignidade por mísero 1 a 0 para a seleção transnacional do Real Madrid, fomos ver o espetáculo “Negras vozes”, do coletivo Montigente, sob o comando do cantor Gil Collares, no Centro Cultural Erico Verissimo. Um show no melhor sentido dessa palavra tão desgastada! Gil canta muito e tem muito bom gosto na escolha do repertório. Soltou a voz interpretando monstros como Wilson Simonal, Tim Maia, Jair Rodrigues, Emílio Santiago, Luiz Melodia e Lupicínio Rodrigues.
Eu me arrepio com essas caras. Saio de casa com frio ou calor para ouvir o que eles cantavam. Já fui com febre e com dor de cabeça. Voltei curado. Eles me tiram da zona de conforto e me levam ao paraíso da fruição estética. Caprichei nessa! Lupi foi um gênio das letras, filósofo das relações amorosas e dos perrengues do cotidiano. Simonal, Emílio, Tim e Jair eram feras da interpretação. Melodia me fascina nos dois quesitos. Como se diz, batia genialmente com as duas. Emílio era pura voz. Tim Maia arrombava festa com aquele vozeirão. O Brasil parece melhor ainda na música do que no futebol. Tem muito Pelé.
O Rio Grande do Sul anda muito bem servido de intérpretes e de instrumentistas. A Rádio Guaíba tem a Maria Luiza Benites. Nem sempre se valoriza o ouro de casa. Em tempos de sertanejo universitário, nossos músicos são joias raras a cultuar. Gil esteve acompanhado pelas cantoras Maria do Carmo Carneiro, Renata Pires, Rhosangela Silvério e Yara Lemos. Contou também com a voz de Luciano Ferreira. A banda teve Cássio Machado (bateria), Silfarnei Alves (violão) e Marco Farias (teclados). As cantoras citadas aparecem também em outro belo espetáculo chamado “Negras em canto”. Juntas ou separadas, nos dias 23 e 30 de dezembro será possível ouvi-las no Boteco Tchê, na Cidade Baixa, e no Amadeus Lounge. Bons programas para quem vai ficar em Porto Alegre neste final de ano em que quase todos se mandam daqui.
O Coletivo Montigente realizou um show com vozes negras por mês no Centro Cultural Erico Verissimo neste ano. De quebra, recolheram, no espetáculo de encerramento, brinquedos para o Núcleo População de Rua, que organiza o Natal sem Fome. Há nesse trabalho um senso de comunidade fantástico. Há também evidentemente uma forte expressividade artística e cultural. Ética e estética. Ética estética. Algo que remete ao famoso conceito de “cimento social”, de Michel Maffesoli, aquilo que nos liga uns aos outros e faz com que vibremos em comum numa sinergia de sentimentos e de valores. Compartilhamento.
Parafraseando o poeta, posso dizer: há tanta cultura bonita nos palcos de Porto Alegre, tanta música linda, tantas vozes poderosas, tantos negros empoderados, tantos artistas espalhando sensibilidade. Tudo isso, como foi realçado em manifestação no show “negras vozes”, em combate ao racismo de certas celebridades midiáticas brasileiras, é “coisa de preto”. Talento é “coisa de preto”. Arte é “coisa de preto”.
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Só dinheiro não faz um supercampeão, mas só com dinheiro se faz um multicampeão.