Juremir Machado da Silva

Nei Lisboa e a música gaudéria

Nei Lisboa e a música gaudéria

Tem polêmica na praça. Beleza!
Nei Lisboa, sempre tão discreto, quase taciturno, disse que a música gaúcha costuma cultuar um Rio Grande do Sul que nunca existiu e que é intragável.
Disse a verdade. Vai pagar por isso.
Não sei exatamente os termos que usou.
Mas, no atacado, é isso mesmo.
Tem gente querendo matá-lo. Literalmente.
Pode-se falar mal de pagode.
Pode-se debochar de música sertaneja.
Pode-se esculhambar o funk.
É proibido falar mal das “coisas do Rio Grande”.
Tem coisa boa na música gaúcha.
Eu adoro José Mendes, Gildo de Freitas, Noel Guarani, César Passarinho, Os Serranos, Teixeirinha.
Mas o que tem de gaiteiro ruim é uma barbaridade!
E esse negócio de que não pode isso, não pode aquilo, mesmo que restrito a um clube onde só entra quem deseja e aceita as regras, tem algo de bizarro.
Mas cada louco com as suas loucuras.
Eu tenho o meu hospício particular. Nele, só entra quem eu quero. Aceitei, provisoriamente, Napoleão.
Luis XVII só deixei entrar com a cabeça.
Pois é, tem louco que gosta de dizer o que pensa.
Nei Lisboa é um baita compositor. Tem letras que já são “tradicionais”. Faz parta da melhor música gaúcha. “Telhados de Paris” é um clássico. É o nosso Chico.
Só detesto quando ela resolve cantar em inglês.
Sou nacionalista, discípulo de Policarpo Queresma.
Há gaudérios curiosos que adoram falar mal do rock, de música eletrônica, de tudo quanto é modernidade.
Só o passado seria bom.
Por que mesmo?
Por que se vestir como nossos antepassados? Por que fazer música sempre com os mesmos instrumentos? Por que esse horror ao novo? Por que essa reverência ao passado?
Os baianos adoram uma tradição. Vivem às voltas com seus cultos, santos, orixás, indumentárias, etc. Não deixam, no entanto, de misturar quase tudo. Conservam e mudam. Fazem uma maravilhosa salada de passado e presente. Colocam tudo num caminhão e vão em frente.
O Rio Grande mítico do ideário tradicionalista, baseado na democracia campeira, nunca existiu mesmo.
É o equivalente a pensar, como já fez Roberto DaMatta, que no carnaval todas as hierarquias se invertem, ou que no futebol todos se tornam iguais quando vibram com o mesmo gol. Cada um vibra com seu cartão no bolso. E num determinado lugar do estádio. Esse papo de que todos se irmanam num passado de lutas é...
Conversa fiada.
Fica firme, Nei.