Ronald Mario Neira Barreiro é o uruguaio que diz ter participado da operação para matar João Goulart. Eu o entrevistei na prisão em Charqueadas. Depois, com ele já em liberdade condicional, Taline Oppitz e eu o entrevistamos, durante uma hora, no Esfera Pública, na Rádio Guaíba. Mantenho contato com ele por e-mail e telefone. O curioso é que o número dele tem prefixo 48. Há poucos dias, o jornal “O Globo” publicou reportagem dizendo que Mario Neira Barreiro estaria foragido em Buenos Aires. Liguei para Neira. Falamos umas cinco vezes na mesma noite. Ele, apesar de sinuoso, foi enfático:
– Dom Juremir, estou no meu sítio em Gravataí. Trabalho na construção civil. Se não trabalho, claro que não como.
A reportagem do Correio do Povo foi ao endereço dado por Mário a mim e à Justiça. O número 86 não existe. Ele tinha um terreno por lá, que vendeu. O resto é fantasia.
Volta e meia um jornal engrossa o mistério em torno de Neira. Em “O Estado de S. Paulo”, ele apareceu como meio desaparecido, escondido, algo assim, mandando mensagens em código e pedindo proteção. Ele se esconde no facebook. É verdade que, no seu perfil, diz que mora em Buenos Aires. Depois de nossas ligações telefônicas, ele me enviou uma mensagem justamente pelo facebook:
– Estimado escritor, Juremir Machado da Silva: na data em que esse jornalista afirma que estava no cemitério de La Chacarita, eu estava em meu sítio de Gravataí dando uma entrevista filmada para um cineasta de Pernambuco que está produzindo um longa-metragem sobre a Operação Condor. Nada melhor do que essa prova para o senhor confirmar que estava no Rio Grande do Sul. O cineasta pernambucano ia rumo à São Borja quando passou pela minha residência para fazer imagens dos equipamentos que foram usados para os registros das conversas do Jango e as fitas magnéticas que eu conservei até agora. Portanto poderia consultá-lo para verificar o que lhe estou afirmando... O nome dele é Cleonildo Cruz, ele está no facebook e até pode ligar para o celular dele para consultar-lhe... Qualquer coisa, pode me ligar para esse número 048 e eu lhe atendo no meu 051 ou no 054 que já lhe passei anteriormente. Um abraço e fico à disposição.
A foto do cemitério de Chacarita seria de alguns anos atrás. Eu mesmo já a tinha visto. Cleonildo Cruz esteve em São Borja. Saiu em capa de jornal gaúcho filmando os trabalhos no túmulo de Jango. Liguei para Cleonildo. Confirmou que esteve no sítio de Neira.
Neira é inteligente. No começo dos anos 2000, pediu asilo no Brasil alegando ser perseguido político no Uruguai, onde está condenado por crimes comuns como assalto a uma financeira. O STF negou-lhe o asilo e decretou sua extradição, que só não ocorreu por ele ter pena a cumprir no Brasil. Agora, com a exumação de Jango apoiada nos seus depoimentos, Neira tirou uma conclusão lógica: se acreditam nele a ponto de exumar os restos mortais de Jango, devem acreditar a ponto de dar-lhe asilo político. Fez novo pedido, que teria sido negado pelo ministro da Justiça. A extradição pode estar próxima. É tudo que Neira deseja evitar. Daí, certamente, a estratégia de simular estar foragido. Quer forçar a ideia de que corre perigo e precisa de asilo no Brasil.
Se não color, pode ser preso novamente por descumprimento das regras da condicional. Pegaria mais alguns meses em regime fechado, evoluiria para o semiaberto, etc. Mais um bom tempo passaria sem extradição. Mário é um manipulador nato e carismático. Esbanja simpatia. Envolve com sua conversa emotiva. Oferece algo (suas famosas fitas com gravações de Jango no exílio), a pessoa morde a isca. Quanto mais corre atrás, mais ele recua, prendendo-a na sua teia. Encarna um personagem labiríntico. Já tem currículo: graças às suas declarações, que analiso minuciosamente em “Jango, a vida e a morte no exílio”, o corpo de um ex-presidente foi exumado. Sem o “réu confesso”, suposto agente secreto da ditadura uruguaia, as dúvidas em torno da morte de Jango ficariam bem menos impactantes. Daí a sua lógica: se tem credibilidade para uma coisa, deve ter para outra.

A estratégia de Mário é sensibilizar as autoridades brasileiras para não ser devolvido ao Uruguai, onde tem pena a cumprir por crimes comuns e, segundo indica, medo de um acerto de contas com amigos do passado por outras coisas. Quais? Conforme ele, coisas dos anos de chumbo.
Nessas fotos, Neira aparece arrumando seus equipamentos de espionagem. Ele garante ter grampeado Jango durante muitos anos. Diz ter fitas dessas conversas. Mas elas teriam sido gravadas em reverso. Só as suas máquinas seria capazes de desvirar as conversas e torná-las compreensíveis.
Em determinado momento, tudo teria sido roubado, com cofre e tudo, do seu sítio por uma quadrilha de rivais. Maria assegura que recuperou o essencial para provar que monitorou Jango e participou da Operação Escorpião, dentro da Operação Condor, para matá-lo.
– A análise do material da exumação vai dar alguma porcentagem, vai dar, vão saber que eu sempre estive falando a verdade – afirma.
Ele também denunciou outra operação, nos céus do Mato Grosso, em que 85 militares, aliados do linha dura general Sylvio Frota, teriam sido liquidados a mando de Ernesto Geisel numa simulação de acidente aéreo.