Juremir Machado da Silva

Nenhuma novidade em Cuba

Muitas pessoas me perguntam por e-mail se escrevi o artigo que circula na internet intitulado "Cuba, inferno no paraíso".

Escrevi. Em 2002.

Não o renego.

Não mudei de opinião.

Estive duas vezes em Cuba. Todo mundo sabe que Cuba é uma ditadura. Alguns tentam negar alguns êxitos dessa ditadura, como a baixa mortalidade infantil e a alta expectativa de vida. É fato. Com alguma maquiagem. Mas isso não legitima a ditadura. Assim como algum êxito econômico para determinadas classes não justifica, embora alguns lacerdinhas achem que sim, a abominável ditadura chilena de Pinochet. Nada legitima uma ditadura, ainda que umas possa ser piores do que outras.

Nada legítima a hedionda ditadura brasileira de 1964.

Fala-se muito em Cuba no Brasil atualmente. Os lacerdinhas, como em 1964, pretendem fazer crer que o Brasil está à beira da cubanização.

Pura bobagem.

Os médicos cubanos não vão cubanizar o Brasil. O DEM , que votou contra a PEC do trabalho escravo, arvorar-se em defensor dos trabalhadores cubanos é uma piada que nem Karl Marx poderia imaginar. Não deixa, porém, de existir algo de esquisito nessa parceria do Brasil com Cuba. Por que vai mais dinheiro para Cuba do que para os médicos? Porque o Brasil quer ajudar o regime cubano. Por outro lado, pode-se, com alguma bonomia, considerar o esquema como uma terceirização. Um edifício que contrata uma empresa que lhe preste serviço de segurança, paga certa quantia. Apenas parte dela é transferida aos seguranças. A empresa, como intermediária, fica com uma parte sob o título de lucro. Cuba é a empresa intermediária. Os médicos ganhariam mais sem o atravessador. Assim como os seguranças.

Mas sem atravessador certos negócios não saem.

No capitalismo e no comunismo.

O mesmo aconteceu no porto de Mariel. Estive lá. Acompanhei uma delegação cheia de empresários gaúchos. Estavam radiantes.

Negócio, para eles, é negócio. Não importa com quem. Ainda mais negócio seguro financiado pelo BNDES. O Brasil ajudou Cuba em Mariel assim como, por ideologia, os Estados Unidos ajudam países pelo mundo. O maior beneficiado, no caso de Mariel, não é Cuba, mas a Odebrecht.

Cuba é laranja da Odebrecht.

Empresas gaúchas também vão vender para Cuba com ajuda do BNDES.

Cuba, mais uma vez, é o intermediário.

Os ataques a esses negócios são apenas jogadas políticas para tentar enfraquecer o adversário. Os mesmos que atacam o apoio à ditadura cubana nunca se molestaram com a ditadura chilena. O contrário também é  verdadeiro. Na hora de ganhar dinheiro, não há escrúpulos.

A ditadura cubana nasceu embalada por uma bela utopia: a liberdade com igualdade, que se revelou uma ilusão. A ditadura chilena nasceu para matar esse tipo de utopia. Seu lema implícito: "liberdade" com desigualdade.

A cada um seus parâmetros filosóficos.

A cada um a sua ilusão.

Cuba é assunto velho, sem novidades, conversa requentada.

Em parte, sua miséria vem do embargo econômico americano, que não tem razões puramente ideológicas, mas é uma represália contra a estatização de propriedades de americanos por Fidel e sua turma.

O socialismo na Ilha tem os dias contados. É um morto-vivo. Um fantasma. Uma sombra cujo corpo já desapareceu. Um vestígio de si mesmo.

O Brasil não corre o menor risco de virar um Cubão. Não corria em 1964. Não corre hoje. Os perigos são outros. Por exemplo, continuar o que é.

Ou recuar.