Juremir Machado da Silva

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos

Homens ao mar

 

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos

No Sul, os mais afoitos falam até em eslavos

Onda alta, fúria negra e tambores silenciosos

Rugem as matracas contra os senhores odiosos.

 

Nos porto do Ceará manda agora o Dragão do Mar,

A vida desses negros já não está suspensa no ar

Homens altos, homens tristes andam pela praia.

A voz forte ordena que dali ninguém mais saia.

 

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos,

No Rio de Janeiro alguns já falam em batavos.

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos.

 

É o fim de uma travessia velha como os anos.

Em São Paulo multiplicam-se os italianos

Com  suas utopias, porco dio e deuses romanos.

 

Uma negra esguia como o vento ou a miragem,

Corre mar a dentro como o rastro de uma aragem,

Vai cantando, vai chorando, vai falando assim:

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos...

 

Em 2017 só falta que negros sejam tratados como iguais

Que não recebam metade do que ganham os demais

Não morram mais cedo do que os seres "especiais"

Nem encham prisões como se fossem marginais

 

No porto do Ceará não se embarcam mais escravos...