Um dos mais importantes livros do filósofo francês Jean Baudrillard, talvez o mais brilhante da sua época, tem como título “À sombra das maiorias silenciosas”. Foi publicado em 1978. Baudrillard morreu em 2007. Ele falava da indiferença das massas: “Não são boas condutoras do político, nem boas condutoras do social, nem boas condutoras do sentido em geral. Tudo as atravessa, tudo as magnetiza, mas nelas se dilui sem deixar traços”. Para ele, pensador independente, as massas flutuavam “em algum ponto entre a passividade e a espontaneidade selvagem, mas sempre como uma energia potencial, como um estoque de social e de energia social”.
Todos queriam domesticar as massas. Elas se mantinham incontroláveis. Baudrillard ironizava os que previam uma aceleração: “Hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra e deixarão de ser a maioria silenciosa”. Esse futuro, para bem ou mal, chegou com as redes sociais. As massas já não são indiferentes, neutras ou silenciosas. Elas tomaram a palavra. As elites queriam fornecer conteúdos às massas. Agora, as massas ditam às elites o que estas devem dizer para continuar no poder. Mas as massas perceberam que elas podiam ir diretamente ao poder. Se antes se contentavam em admirar celebridades, passaram, com os reality shows, a ser elas mesmas as celebridades. O passo seguinte seria a política como expressão frontal.
Alguém dirá: confuso isso. Ilusão. Baudrillard dizia apenas que as massas não tinham poder de fala, mas que enganavam seus enganadores absorvendo por um tempo e depois jogando no lixo as suas recomendações, elegendo por anos a fio seus manipulares e depois, de repente, descartando-os sem dó nem piedade. Era a vingança da plebe. A tecnologia deu as massas o que elas nem esperavam: o poder de emissão. O que elas dizem? O que bem entendem, quando bem entendem, frontalmente. As maiorias ruidosas odeiam a moderação e o “mimimi”.
Jean Baudrillard fazia frases enigmáticas do ponto de vista da mídia, mas que conseguiam descobrir verdades profundas escondidas nas superfícies: “O social existe para cuidar de absorver o excedente de riqueza que, redistribuído sem outra forma de processo, arruinaria a ordem social, criaria uma situação intolerável de utopia”. As massas ruidosas das redes sociais contrariam o filósofo. Elas temem o social e querem exterminá-lo a golpes de fake news para que o excedente possa continuar concentrado. O que elas ganham com isso? Satisfação ideológica. Elas alegam que pagam impostos em demasia. Se os lucros e dividendos não são taxados já seria outra coisa. As massas ruidosas são diretas: a cada um conforme a sua capacidade de ganhar e acumular.
Se as maiorias silenciosas aceitavam a proteção estatal cinicamente, as maiorias ruidosas das redes sociais recusam publicamente qualquer benefício que possam chamar de privilégio ou de favorecimento aos seus oponentes. Querem abater o Estado. Incrédulas quanto à capacidade redistributiva estatal, declaram a extinção do social como demanda organizada de minorias excluídas e proclamam o triunfo das redes como catalisadoras do ódio represado contra o coletivo. O super-homem de Nietzsche chega a vitória por um atalho. Um longo atalho.