No Velho Oeste literário e jornalístico
Cavaleiro solitário
Vivo no Velho Oeste.
Sou um francoatirador, um pistoleiro solitário cavalgando um alazão arrogante.
Meu cão se chama Lince.
Fui condenado a vagar para sempre por terras desertas.
Procuro fazer por merecer.
Percebo isso cada vez que uma editora me pede nomes de jornalistas de Rio de Janeiro e São Paulo para envio dos meus livros. É cada vez mais difícil fazer uma lista. Conheço muitos, especialmente os que controlam as “instâncias de consagração”. Eles também me conhecem. Mas nenhum gastaria uma bala ou uma linha comigo.
Fazem bem. Não perco oportunidade de dizer o que penso de todos eles.
Jô Soares é uma das maiores empulhações literárias nacionais.
Seu programa, até pelo horário, é o melhor remédio para a insônia que conheço.
Pedro Bial, um mau poeta que deixou de ser bom repórter para virar apresentador de uma lata de lixo.
A revista Veja não passa de uma publicação para consultório de dentista.
A Folha de S. Paulo é uma assessoria de imprensa de editoras afetadas como a Companhia das Letras, chamada pelos frequentadores da Padres Chagas de “Companhia”.
As revistas Piauí e Bravo são ótimas para a gente apoiar os pés enquanto vê jogos de futebol na televisão enchendo a cara de cerveja ou para impressionar amigos “cabeças”.
Surgiu ultimamente um cara chamado Edney Silvestre, que ganhou o prêmio Cágado deste ano com um livro para adolescentes na fase da descoberta dos prazeres da masturbação e tios em busca de uma nova sensibilidade.
Estadão e O Globo só publicam material de propaganda recomendada.
Não entendo como um autor da minha envergadura (nada de pensamentos obscenos, por favor), certamente o pior romancista do país, não recebe o espaço merecido.
Afinal, faço a diferença, mesmo que seja para baixo.
Depois de alguma reflexão, faço a lista. Boto sempre os mesmos nomes. Abro com Diogo Mainardi. Gosto dele. Ele gosta de mim. Nunca escreverá sobre um livro meu. A Veja não deixa. Desconfio que isso lhe tira um peso das costas.
Em segundo lugar, ponho Augusto Nunes. Temos antigos vínculos. Ele também não gastará uma linha comigo. Decepcionou-se. Sou menos reacionário do que ele imaginava.
Pobres dos meus editores. Sonham em me converter num Fernando Morais, num Ruy Castro, num Nelson Motta, um desses quase historiadores e semibiógrafos.
Impossível. Não tenho mais amigos jornalistas no centro do país. Fim de linha.
Alguns esperam que o Jô Soares me perdoe por eu ter provado que ele é um escritor tão medíocre quanto eu.
Todo editor sonha em fazer seu autor “passar no Jô”. Que mico!
Pode ser que ele me perdoe um dia. Mas eu não o perdoarei jamais por ter tentado tomar o meu lugar no topo da mediocridade nacional. Houve um tempo em que a minha lista alcançava facilmente 50 nomes.
Nos últimos anos, mal chegava a dez.
Desta vez, resolvi ficar nos dois nomes já citados.
A editora, ao menos, economiza no frete, se bem que o Diogo está morando na Itália. Seria melhor tirar o nome dele para economizar. Não, não, melhor deixar. É preciso ser prático a alimentar as ilusões dos editores.