Nomes de cidades
O Conselheiro Prado
Se eu fosse natural de Antonio Prado, fazia uma campanha para trocar o nome da cidade. O paulista Antonio da Silva Prado foi um escravocrata empedernido que só se converteu à abolição quando já não havia mais volta, com a fuga de grandes levas de escravos em São Paulo e o sistema fazendo água por todos os lados. Quando era ministro da Agricultura, em 1886, Antônio Prado deu um jeito de tornar uma lei ruim para os escravos em ainda pior. As suas manipulações foram chamadas pelos abolicionistas de “regulamento negro”. Robert Conrad resume assim a ação desse político conservador em relação à aplicação da famosa “lei dos sexagenários”: “Ampliou diretamente a vida da escravidão por mais de um ano ao determinar que as diminuições anuais dos valores dos escravos só começariam a contar a partir da data do registro dos escravos e não da data da lei”. Acham pouco?
A lei proibia a venda de escravos de uma província para outra. Prado determinou que a cidade do Rio de Janeiro, município neutro, era parte da província do Rio de Janeiro, permitindo que 30 mil escravos da cidade do Rio fossem transferidos para a zona produtora de café. Prado ainda fez questão de aplicar o artigo da lei que punia severamente quem desse fuga ou abrigo a um escravo fugido. Adversário do que chamava de “abolicionismo cego e apaixonado”, Prado aderiu ao abolicionismo na reta final para ajudar seus amigos fazendeiros a tirar o que ainda podiam dos escravos: um período adicional de trabalho de cada negro como indenização aos donos, o que chamou de política razoável, sensata e flexível. Prado é o autor de uma pérola contra os escravos fujões. Segundo ele, a miséria e a fome eram os “primeiros castigos de sua negra ingratidão para com seus ex-senhores”. Uau!
Alguns sustentam que Antonio Prado redigiu o texto da “lei Áurea”, mas no dia da votação ele nem compareceu ao plenário. Seus defensores dizem que estava doente. Seu irmão Martinho contou mais do que ele para o começo da imigração italiana. Antônio Prado poderia chamar-se Martinho Prado. Ele arrancou do irmão Antonio patrocínio estatal para a impressão de folhetos sobre o Brasil distribuídos na Europa e que não fosse preciso pagar o visto de entrada. O projeto que Prado gostaria de ter visto aprovado no lugar da “lei Áurea” previa indenização monetária para os ex-proprietários, colheita gratuita da safra madura pelos ex-cativos e obrigação de todos eles de permanecer por seis anos nos lugares onde haviam sido emancipados. Queria ainda sugar homens, enfim, livres.
É verdade que Prado passou para o lado abolicionista e convenceu seus amigos paulistas a cederem, libertando seus escravos em troca de três a cinco anos de trabalho gratuito, prática que o Rio Grande do Sul antecipou, conseguindo até sete anos de “escravidão de homens livres”. Se eu fosse de Antonio Prado, brigava por outro nome. Que tal Joaquim Nabuco, José do Patrocínio ou Luis Gama? Não precisaria tanto. Pode ser Bela Itália. Seria um bom começo para mudar o nome de boa parte das cidades.