Cientistas não param de descobrir novos planetas.
Eu não paro de fazer novos contatos.
Cansei de me limitar aos terráqueos sem graça, que vão do Lulu Santos aos lacerdinhas.
Já são mais de mil planetas. Só Plutão foi rebaixado. A última novidade é o Kepler-442b. Tem tudo para ter vida. É 30% maior do que a Terra. Orbita em torno de uma estrela anã laranja. Gosto de planetas que recebem radiações cítricas. Parecem muito adequados para receber homens acima dos 50 anos de idade. Faz muito que passei a acreditar em vida fora da Terra. Por que só nós teríamos esse privilégio? Ou seria inconveniente?
O telescópio Kepler fez suas descobertas observando apenas 0,25% da abóbada celeste.
Desse jeito, teremos quase tantos planetas quanto denunciados na operação Lava-Jato.
Mantive contato com um habitante de Kepler-442b. Ele deu informações impressionantes.
Segundo Paulinho, Kepler-442b adotou uma lei muito boa para o magistério. Fixou-se um piso nacional para o salário dos professores. Mas alguns Estados não o cumprem. Em 2015, saiu novo reajuste do piso. Não será respeitado. O STF de Kepler-442b declarou o piso constitucional. Estados dizem que não têm dinheiro e vão ignorar o STF. O Rio Grande do Sul é um dos Estados de Kepler-442b que não pagam o piso. O novo governador seguirá a política do antigo: deve, não nega, mas não pagará. O antigo governador, criador do piso como ministro da Educação, não o pagava. O novo secretário da Educação quer recursos da União para pagar os professores.
Se o antigo governador, que era do partido da presidente da República, não ganhou esses recursos, por que o novo, de oposição, receberia esse mimo? Sonhar não custa. A tentativa é livre. Se colar, colou. É assim por lá.
Em Kepler-442b predomina a coerência. Lá não são admitidas bizarrices terráqueas. Tudo faz sentido nesse país há mais de mil anos-luz da Terra. Por exemplo: não há dinheiro para professores, que são muitos e ganham pouco, mas governadores, vices, secretários de Estado, ministros, deputados estaduais, deputados federais, ministros e juízes, que são poucos e ganham muito, já tiveram aumentos de salário. Em Kepler-442b, professor ganhando R$ 1 mil não tem auxílio-moradia, mas magistrado, ganhando R$ 30 mil, sim. Na lógica de Kepler-442b quem ganha mais, obviamente, gasta mais. Em consequência, precisa ser mais ajudado para manter seu padrão de vida mais elevado.
A política em Kepler-442b é simples: elege-se uma presidente de esquerda. Durante a campanha, ela ataca o seu adversário acusando-o de querer tomar medidas duras contra os interesses dos trabalhadores. Eleita, ela chama para o ministério três representantes clássicos do pensamento de direita e, antes mesmo de tomar posse, anuncia medidas duras contra os interesses dos trabalhadores. Em Kepler-442b, tentar diminuir os ganhos dos bancos ou taxar as grandes fortunas é considerado irresponsável. Quando a nação precisa economizar, os cortes devem atingir a plebe. Ainda bem que esse planeta fica muito distante da Terra e não pode nos contaminar com seus hábitos estranhos.
Lá, o presidente do Senado é um coronel que já pagou pensão da amante com dinheiro de empresa amiga e usou avião oficial para ir fazer um implante de cabelo. Aqui, seria impossível. Ufa!
Somos um exemplo para o universo.