Notícias finais da Feira do Livro de Palomas
Fim de Festa Literária em Palomas
Fazia tempo que eu não ouvia falar de Palomas.
Entrei em contato.
Palomas passou os últimos 15 dias de novembro envolvida com a FELPAL, a mega Feira do Livro de Palomas, a maior da América Latina na zona rural.
Um sucesso.
Nunca se vendeu tanto. E tão caro.
A FELPAL todo ano bate recordes de vendas.
Até livro se vende.
Editores e livreiros conseguem dar menos descontos fazendo o público acreditar que estão dando mais.
Durante o ano, nas livrarias, compra-se mais barato.
Pela internet, também.
Uma façanha.
Os palomenses são esquisitos.
Amam seus ídolos e contrariam até os fatos para defendê-los. É uma questão de racionalidade invertida.
Durante a FELPAL, um famoso editor denunciou uma trapaça no prêmio Cágado em favor do famoso Chico.
Chico, com um romance, levou o prêmio de melhor livro do ano. Mas só chegou em segundo como romance.
Um escritorzinho barato de Palomas repercutiu a denúncia. Fora de Palomas, iniciou-se um movimento: “Chico, devolve o Cágado”. Chico é Chico. Calou—se.
Em Palomas, todos culparam o escritorzinho: invejoso, ressentido, com ciúmes do Chico. Chico é Chico. Chico não precisa disso. Vai ver Chico nem sabia...
Os fãs palomenses são jecas que se acham geniais.
Em qualquer situação, explicam críticas aos seus ídolos com um argumento sofisticado: ressentimento.
A grande polêmica da FELPAL aconteceu no final.
A organização publicou uma lista.
A mídia e a plebe entenderam que era a lista dos mais vendidos. Não era. Era a dos mais comprados.
Palomas é o único lugar do mundo em que a lista dos mais comprados nada tem a ver com a dos mais vendidos.
Depois de uma briga, virou lista dos mais citados.
Citados como?
Como comprados na Feira por 600 pessoas.
Comprados. Não vendidos.
Uau!
Um livro do escritorzinho vendeu 30 exemplares.
Entrou na lista dos mais comprados.
Quer dizer, mais citados.
Outro, vendeu em torno de mil.
Ficou fora da lista dos mais comprados.
O escritorzinho estranhou.
Contestou os números.
Foi chamado de burro, feio e ressentido.
Onde se viu contestar a estatística?
Onde se viu contestar a ciência?
A FELPAL tem uma centena de barraquinhas numa praça em reforma há meses sem que se conheça resultado.
Impossível, segundo os especialistas, obter por pesquisa de amostragem algum dado confiável de vendas.
Só um taipa imaginaria o contrário.
O escritorzinho barato é um taipa.
Consultou especialistas palomenses.
Disseram-lhe que dá para fazer com um pé nas costas.
Argumentos mais consistentes, porém, surgiram:
Ressentido, queria ser o mais vendido.
Choro de perdedor por ter vendido pouco.
Medíocre, invejoso, centro do mundo.
Onde se viu querer estar numa listinha?
Alguns só não tiveram coragem de assinar.
O escritorzinho resolveu inscrever-se num curso de estatística federal avançada para aprender como se pode chamar de irretocável uma pesquisa indicativa que flagrou a citação de um livro vendido a 30 exemplares e não outros vendidos a mais de 600, 800 ou 1000.
A comissão de FELPAL garantiu que não fez pesquisa de mais vendidos. Sustentou que não pretendia levar a que se pensasse em vendas. Mas convocou uma coletiva na qual divulgou a tal lista dos mais comprados/citados.
Um membro da comissão tentou avisar aos colegas que era uma roubada, que talvez fosse melhor nada divulgar. Não o ouviram. Confiavam no poder da “enrolation”.
Gumercindo, oráculo e estatístico de Palomas, resolveu sugerir uma nova metodologia para 2011:
– Cada barraca lista numa folha de papel almaço todos os títulos de que dispõe.
– Sempre que um exemplar for vendido, o vendedor tira de trás da orelha um toco de lápis, lambe a ponta, morde o lábio e faz um pauzinho ao lado do título vendido. Vai formando quadradinhos.
– Ao final da noite, é só contar os pauzinhos.
Como fazer para que não haja pauzinhos sem vendas?
Contrata-se meia dúzia de estagiários e pede-se para que façam uma pesquisa por amostragem nas sacolas dos compradores. Cruzam-se os dados.
É sofisticado demais.
Palomas, contudo, é inteligente.
Tem tudo para se adaptar.
Pode ter erro.
Mas dificilmente 30 vai aparecer mais do que mil.
Dentro de mil anos, é possível que até em Palomas a lista de mais comprados venha a ser igual a de mais vendidos. Tudo dependerá da evolução da ciência.
Uma única coisa jamais mudará em Palomas:
Chico é Chico.
Pensar o contrário só pode ser ressentimento.
Tentar se comparar com Chico, em qualquer campo, então, é uma heresia. Chico é incomparável.
Talvez com Deus.
O cérebros dos fãs palomenses do Chico será estudado nos Estados Unidos por uma equipe interdisciplinar.
E corneteiro?
Corneteiro é corneteiro.
Principalmente anônimo. E jornalista.