Juremir Machado da Silva

Noventa anos da revolução que ganhamos

Movimento vitorioso de 1930 mudou o Brasil

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Todo ano comemoramosa guerra civil escravista que perdemos.

Nunca festejamos a revolução de 1930, aquela que ganhamos para o bem do BrasilEm 2010, publiquei um livro sobre a Revolução de 1930, que completa 90 anos neste 3 de outubro. Quando agora o releio, fico espantado com o papel desempenhado pelos personagens. Eram vulcões em erupção. Reproduzo aqui o trecho de abertura. Ando nostálgico. Saudoso desses homens monumentais e dessa revolução que ganhamos.

“Nada parecia destinar o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas a comandar uma revolução nacional. Mas o Brasil precisará de uma revolução e ele terá a paciência e a frieza para ser o homem certo, no lugar certo, na hora ‘certa’: 17h30 de 3 de outubro de 1930. Uma revolução, porém, nem sempre se faz na hora certa. Na hora marcada. É questão de muitos ponteiros. É preciso um líder à frente do seu tempo e totalmente dentro dele, um homem em dois tempos. Getúlio sempre sabe, como os melhores jogadores calculistas, esperar o momento certo de agir, o que impacienta seus aliados e desconcerta seus inimigos.

     Ele é o quarto filho, de um total de cinco, todos homens, do general Manoel do Nascimento Vargas, que lutara na Guerra do Paraguai, tornara-se um fazendeiro rico, graças a um bom casamento e a ter escolhido o lado certo na política e nos campos de batalha, e fora um dos baluartes do conservadorismo republicano que mudara o Rio Grande do Sul, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, para mantê-lo sem grandes alterações.

     Nascido na longínqua cidade de São Borja, na fronteira com a Argentina, na chamada ‘savana verde’, tudo preparava Getúlio para ser um estancieiro, um militar, um chefete da agressiva política local, quem sabe um advogado ou, no máximo, um líder regional. A vida, no entanto, parece divertir-se arranjando-lhe caminhos inesperados. É um homem de sorte. Devia chamar-se Getúlio Bueno. O gesto de uma mulher traída alterou-lhe o nome. E o destino? Sua bisavó, abandonada, num fim de mundo, pelo marido – que fugiu com outra na garupa do cavalo num dia de arroubos e nuvens pesadas – pagou o padre do lugarejo para cortar o sobrenome Bueno da sua prole. O avô de Getúlio será então apenas Evaristo Vargas. Os descendentes serão tudo em nome da mãe.

     Getúlio será muito. Pois o Brasil precisará de muito. É uma nação de miseráveis. Agora, nesta tarde quente, enquanto espera a visita de João Neves da Fontoura, Getúlio pensa nesse Brasil que vem revolucionando. Ele será o ditador do Estado Novo. O esquema que rabisca é muito simples: em 1500, os portugueses ‘descobrem’ uma terra que tinha dono e apossam-se dela. Ao longo dos anos, catequizam, exploram e massacram os nativos. Introduzem negros escravos trazidos da África. Em 1822, um príncipe português proclama a independência brasileira. Em 1888, os escravos são libertados e vão somar-se ao grande contingente de miseráveis livres. Essa medida incontornável arrasta o Império, que desaba em 15 de novembro de 1889. Os quarenta anos seguintes constituirão a República Velha. Um tempo de pobreza para a maioria dos brasileiros, de analfabetismo, de fraudes eleitorais disseminadas e de controle da política por ‘coronéis’. O Brasil era a fraude”. Isso foi há 90 anos.