Juremir Machado da Silva

Novidades da era Bolsonaro

O velho se apresenta como novo

 Novidades

 

      Queiroz ainda não apareceu para depor. O Ministério Público dorme em berço esplêndido. Que fazer? Dar tempo ao tempo. Não há mais pressa. O tempo da justiça voltou a ser lento.

A mídia revela o laranjal do PSL, sigla ocupada por Jair Bolsonaro para se eleger presidente da República. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do DEM, partido que domina o governo, antes senador incansável no combate à corrupção, afirma que não se deve perder tempo com “coisas bobas”. O conceito de bobagem retornou ao que sempre foi desde Cabral.

O novo regime sempre defendeu o esdrúxulo projeto chamado de “escola sem partido”, que mais parece escola sem opinião e sem crítica. Na primeira oportunidade, o ministro colombiano da educação, Ricardo Vélez, tentou partidarizar as escolas brasileiras com o slogan de campanha de chefe numa manobra de fazer inveja ao ditador norte-coreano ou ao ditador venezuelano Nicolas Maduro. Não passou. Ficou o enorme mico. Uma patriotada total. De rir deitado.

      O problema não é cantar o hino, o que se pode fazer com alegria. É impô-lo em formação militar e com saudação ao novo Brasil. Aí é lavagem cerebral. Em bom jargão, trata-se de tentativa de instrumentalização do espaço escolar para fins ideológicos e políticos. Fez lembrar o Estado Novo do ditador Getúlio Vargas. Em 1968, quando entrei na escola rural de Palomas, cantava-se o hino em posição de sentido. Decretado o AI-5, em 13 de dezembro daquele ano, que fez a ditadura ser ainda mais ditadura, o fervor aumentou. Não se aprendia a ser patriota. Recebia-se o patriotismo pela goela. Quem não cantava, por não saber ou por distração, ia para trás da porta. Pena que não havia celular para filmar e enviar tudo ao MEC.

      A patriotada de Vélez revelou o óbvio fardado: o problema é sempre a ideologia alheia. O suposto esquerdismo dever ser expulso das escolas.  No seu lugar, deve entrar sem constrangimento o direitismo em ordem unida ou com a mão no lado esquerdo do peito. Uma ideia que talvez não tenha ocorrido ao ministro Vélez é a de resgatar o Canal 100 (lembram dele?) nos cinemas para exibir os vídeos patrióticos dos alunos cantando o hino e ecoando o lema de campanha eleitoral de grande líder. Ideologias adoram saudações de mão e culto à personalidade dos chefes. Ricardo Vélez mostrou o gigantismo do seu despreparo político, jurídico e pedagógico. Duas coisas são muitos difíceis: perder o sotaque e os hábitos cultivados.

O presidente Bolsonaro precisou revogar, depois de tomar uma goleada no parlamento, o seu decreto que ampliava o número de pessoas subalternas aptas a esconder coisas por meio de categorias sigilosas contrariando a lei de transparência e o espírito da época. Na cerimônia de posse do novo presidente da Itaipu, Bolsonaro, que sempre critica com razão o ditador da Venezuela, rasgou elogios para o longevo ditador paraguaio Alfredo Stroessner, que chamou de estadista. Stroessner morreu exilado no Brasil sem ser incomodado. Ditadura é sempre a dos outros. As demais, no máximo, são regimes autoritários ou necessidades circunstanciais. Coerência acima de tudo. Bom senso e liberdade acima de todos. Pátria amada, Brasil.