Novos tempos
– Pai, que é isso?
– Isso o quê, guria?
– Esse pijama listrado que o senhor está vestindo?
– Pijama listrado, não, minha filha. Mais respeito com a camisa do glorioso tricolor gaúcho de tantas conquistas.
– Mas o senhor sempre foi colorado fanático, pai.
– Por isso mesmo, filhota. Hoje, todo colorado fanático é gremista desde criancinha. Grêmioooo, Grêmiooooooo...
– O senhor sempre jurou que preferia morrer de frio a vestir essa coisa listrada dos bananas de pijama.
– Bananas, não, filha, mais respeito com o nosso irmão, que o tricolor tem alma castelhana e sangue farroupilha.
– Pai, nunca pensei que o senhor me daria esse desgosto.
– A vida é um roda-gigante, filha, gigante...
*
– Filho, que horror!
– Como assim horror, pai?
– Essa camiseta do Flamengo?
– Mengo, Mengo, Mengo!
– Tu sempre odiaste o Flamengo, meu filho. Nem do Zico tu gostavas. Eu me lembro quando tu dizias que ele só jogava no Maracanã e contra o Americano de Campos.
– O Americano, não, pai.
– Que time, então?
– O Goitacás.
– Filho, tão gremista que tu eras, para meu desgosto, diga-se de passagem, e agora estás aí vestindo essa camiseta rubro-negra. Ah, quanto desgosto para um pai.
– Gremista, pai, hoje, é Mengo desde criancinha.
– E a alma castelhana do Grêmio, filho, onde fica?
– Hoje é alma paraguaia, pai.
*
– Marido, já que as coisas estão assim, eu queria dizer uma coisa... Eu nunca tive coragem de dizer...
– Depois, mulher, depois, que o jogo já vai começar.
– Mas é uma coisa importante...
– Nada é tão importante quanto o jogo de hoje...
– Mas o Grêmio vai entregar. Até os cachorros aqui de casa sabem que o Grêmio vai perder para o Flamengo.
– Eu não sei, mulher. Eu creio na honra das pessoas.
– Sei, sei, mas eu preciso falar agora...
– De jeito nenhum, mulher. O Grêmio já entrou...
– A tua filha é garota de programa.
– Espero que, pelo menos, escreva um livro melhor do que da Bruna Surfistinha e que o filme seja com Juliana Paes.
– Tem outra coisa...
– A bola já está no meio, mulher.
– Teu filho é gay.
– Já disse que eu não tenho preconceitos.
– Tem uma coisa comigo também...
– Depois, mulher, tem coisa mais importante agora.
– Vou embora com o Souza. Pronto, falei.
– Souza, que Souza? O Souza do Grêmio?
– O teu irmão, idiota. O teu irmão.
– Ufa! Pensei que tu também ias torcer pelo Flamengo.
(publicado neste domingo, 6 de dezembro de 2009, na coluna do Correio do Povo)