Juremir Machado da Silva

Nunca se roubou tanto

Nunca se roubou tanto

O grande cineasta Luis Buñuel, em seu livro de memórias Meu último suspiro, faz revelações importantes: nunca entendeu o whisky, sempre considerou o dry martini como o melhor drink e jamais conseguiu participar de uma orgia, embora vontade não lhe faltasse, pois, oriundo de uma família muita religiosa, via no pecado uma deliciosa e excitante fonte de prazer. Charles Chaplin até tentou organizar uma orgia para eles, tendo convidado duas belas garotas, mas elas se desentenderam (ambas queriam Chaplin) e foram embora sem dar para ninguém. Assim é a vida. Até os grandes chupam no dedo. Uma coisa leva a outra. Pensei nisso na praia antes de tomar um daiquiri no Devassa. Uma cidade como o Rio de Janeiro sempre tem um novo point e nada mais inadequado do que dizer a um carioca que a gente já sabe qual é esse novo point.
– Qual é, cara? Point nada. Esse aí já foi.
Essa será a resposta. Um dos points, no entanto, é o Veloso, no Leblon, preferido por meu amigo Luis Gomes, onde se pode ficar confortavelmente em pé, na rua, durante horas tendo como compensação um desfile de mulheres e homens espetaculares, inclusive muitos televisivos. Eu gosto muito do Devassa de Ipanema, onde é possível beber louras, ruivas, negras e índias da casa e ainda falar, sentado, sobre Buñuel. Tem certa afetação nisso. Mas faz parte do jogo. Pode-se falar também dos problemas sociais. Na areia, logo depois de ver uma loura com um biquíni preto que me deixou silencioso durante uns 15 minutos, refleti muito sobre a oposição mínimo/máximo. Apesar de alguns considerarem essa discussão velha, ela continua dominando as posições em relação ao Estado (tem gente que fica num estado constrangedor, mas não é isso).
A direita parece fazer de tudo para confirmar a crítica ao Estado burguês feita pelos marxistas. Que desejam os conservadores do Estado? Que seja mínimo em economia, especialmente não atrapalhando a realização de negócios vantajosos e não cobrando impostos excessivos, e que seja máximo na repressão aos movimentos sociais e a todos os chatos que tentem atrapalhar a nobre missão de ganhar bastante dinheiro sem ter de dividir muito. Faz sentido. Depois da crise financeira internacional de 2008, que ainda ronda por aí, ficou claro que a direita também espera um Estado máximo na hora das quebradeiras. Um Estado que entre em cena, salve o capitalismo e imediatamente caia fora para que o jogo recomece sem intervenção nem controles. É o Estado Pronto-Socorro.
Tudo isso eu compreendi olhando aquele biquíni. E o que havia dentro dele. É incrível como essas situações podem nos tornar clarividentes. Um pouco mais e eu teria compreendido a teoria da relatividade e até alguns teoremas que sempre me escaparam nas aulas de matemática. O Estado deve cobrir o mínimo para que o máximo possa vicejar e satisfazer nossos desejos. Em certos momentos, entretanto, o Estado deve cobrir o máximo para que a visão do mínimo apareça como um estímulo ao investimento ou como uma eterna visão do paraíso a ser reconquistado. Só que aí um gaiato apareceu como uma teoria estranha:
– Um biquíni cobre tanto quanto uma burka.
Espichei o ouvido.
– É como um holograma, está entendendo: a parte está no todo, que está na parte. Dá uma olhada só...
O seu interlocutor olhou. Eu também. Era a gata do biquíni preto evoluindo na areia como numa passarela.
– Está tudo coberto.
– Co... coberto? – hesitou o outro.
– Você a vê nua?
– Bem... Não... Mas...
– Ela está vestida. Um tapa-sexo cumpre a mesma função de uma burka. Esconde o todo ao cobrir uma parte mínima. Essa é a genialidade do mínimo. Cobre tudo com menos. Se os muçulmanos percebessem isso, muitas guerras e conflitos interculturais poderiam ser evitados, entende?
Fiquei curioso: seria o cara um representante do novo neoliberalismo? Ou um antropólogo maluco? Não tive resposta. A gata do biquíni preto se foi. Os caras foram atrás. Ou foram embora coincidentemente na mesma hora. Na praia se aprende muito. Logo outra discussão me prendeu.
– Nunca se roubou tanto neste país.
Era um cara velho e muito magro falando.
– Conversa – respondeu seu amigo, ainda mais magro.
– Conversa?
– A roubalheira é sempre a mesma. Certamente se rouba hoje tanto quanto se roubava na época do FHC, do Collor, do Sarney e dos milicos. A turma do Lula não é original.
– Sem essa, meu. Agora é muito mais. Tá cara que é mais.
– Papo. Isso é o que a direita tenta colar na situação em desespero de causa. De tanto repetir essa mentira, pode ser que ela se torne verdade. A roubalheira é a mesma.
– A mesma? Posso enumerar os escândalos?
– Eu também posso. Você vai colocar o mensalão do DEM de Brasília na conta do Lula e da esquerda? Sim ou não?
– Você está cego!
– E você está de olho bem aberto.
– Só falta agora você achar que as forças armadas devem aceitar gays e lésbicas nas suas fileiras?
– Já aceita. Só precisa deixar que saiam do armário.
Como dizia o professor de filosofia de Buñuel ao aluno escolhido para ser sabatinado: “Refute Kant”.
O bom aluno acabava com Kant em dois minutos.