O apanhador de laranjas
Esta é a história real de um menino e do seu avô numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O menino tinha, na época, oito anos de idade; o avô, 75. Todo ano, na chácara do avô, laranjas amadureciam, coloriam alegremente o pátio e depois caíam. As poucas pessoas da casa comiam o que desejavam e o resto apodrecia. A família do avô tinha sido rica. Mas os tempos haviam mudado e o ancião vivia numa digna pobreza. Sem necessidades. Sem excessos. Modestamente.
Numa chácara vizinha, o menino visitava uma senhora que, diariamente, encerava milimetricamente o piso da sua casinha de madeira. Tudo brilhava. Como se dizia, a casa era um brinco. A família dessa senhora tinha uma cozinha separada da casa e nesta só se entrava para dormir e com panos nos pés. Quase nunca aparecia uma visita. Ou sempre se sabia por antecipação quando isso aconteceria. Mesmo assim, todas as manhãs a mulher fazia brilhar o seu tesouro. O menino ficava encantado diante daquele trabalho inadiável. Fizesse chuva ou sol, a mulher cuidava da sua casa simples de madeira com esmero. Era uma espécie de Penélope do pampa fazendo e refazendo amorosamente o seu trabalho.
O garoto não conseguia compreender. Numa das suas andanças pelo pátio da vizinha, perguntou àquela senhora: “Por que faz isso todos os dias?” A resposta deixou-o ainda mais desconcertado: “Porque gosto de ver a minha casa bem bonita.” Depois de refletir um pouco, como se estivesse preste a sair correndo ou a dizer que não acreditava, o menino ainda perguntou: “Para quem?” A mulher riu. Sentou-se na escadinha da porta da sala, acendeu um cigarro, soltou algumas baforadas e respondeu docemente: “Para mim.”
Um dia, de repente, o menino pediu para colher e vender as laranjas na cidade. Queria comprar livros e ser médico. O avô sentiu vergonha. Na sua família, nunca tinham feito algo assim. Tanto o menino insistiu que ele cedeu. Colheram mil laranjas. Lotaram uma carroça. Marcaram a data da viagem à cidade. Não podia chover. A estrada era ruim e atolaria. O menino viu, ao final da tarde, o tempo fechar e não dormiu de ansiedade. Sentia que o avô, não por maldade, mas por vergonha dos seus antepassados, esperava que a chuva o salvasse da expedição. Amanheceu nublado. Tempo feio. Mas sem chuva.
O avô hesitou. A chuva poderia pegá-los no caminho. A estrada ficaria pesada e o cavalo não suportaria. As laranjas, porém, já colhidas, murchariam. O menino bateu pé. O avô, surpreso, cedeu novamente. Partiram. O aguaceiro desabou sobre eles no meio da encosta mais íngreme. Em poucos minutos, a carroça patinava no lamaçal e o cavalo refugava a subida. O avô parecia balbuciar: “Não disse!” Propôs que retornassem. Voltariam no dia seguinte.
O menino saltou para o chão e puxou o cavalo ladeira acima, procurando pontos mais firmes. O animal, guiado assim, encontrou forças para avançar. Coberto de lama, o menino voltou para o seu lugar. Assim foram ao longo de três horas e de quase 20 quilômetros. Mais chovia, mais havia lama, mais o cavalo refugava. O menino saltava para o chão e, com o barro pelas canelas, implorava ao animal que se esforçasse. Chegaram à cidade depois de uma pequena epopéia.
O avô pareceu ao menino pequeno em cima da carroça. Quando, porém, as pessoas os fitavam, ele se enchia de orgulho e ficava ereto no seu banco. O menino, então, parecia ver um gigante. Estavam, enfim, juntos numa pequena grande aventura cheia de obstáculos e de coisas não ditas, mas perceptíveis. Venderam as laranjas. Na volta, no dia seguinte, o avô disse apenas: “Obrigado, meu filho!” O menino teve vergonha de responder: “Obrigado ao senhor.”
A vida deu as suas voltas. Sempre tantas. Inesperadas. O menino não se tornou médico. Mas pedagogo.
Outro dia, depois de tantos anos, vi-o na televisão, num desses programas sobre educação. Quando lhe perguntaram sobre a imagem mais forte da sua infância, respondeu sem hesitar: “Uma mulher que, sem esperar visita nem recompensa, fazia brilhar, diariamente, a sua casa modesta, no campo, como se enfeitasse um palácio para um grande baile ou aguardasse alguém muito importante.” Ele tinha, enfim, compreendido.
Espero que não se veja nesta quase fábula tirada de fatos reais uma parábola moralista e edificante de um self made man gaúcho. Mas apenas uma história de luta, de amor e de orgulho de ser o que se é e de sonhar o que se quer ser.
Uma cor, um sumo, uma força estranha. Ou, simplesmente, um itinerário de esperança e de encantamento.
Um laranjal.
(extraído de meu livro Aprender a (vi)ver): é assim que imagino um ano. Uma casa que devemos fazer brilhar.
Feliz 2010.