Juremir Machado da Silva

O assassino Tom Wolfe e as prostitutas cubanas

O assassino Tom Wolfe e as prostitutas cubanas


 

     O escritor americano Tom Wolfe é um personagem. Aos 78 anos, continua irreverente, embora alquebrado, mas acompanhado de uma mulher bem mais jovem. Está entrando na crise dos 80. Em Porto Alegre, palestrando no ciclo Fronteiras do Pensamento, detonou algumas vacas sagradas das nossas elites modernosas. Esculhambou a arte moderna, da literatura de Joyce à pintura de Picasso. Definiu a arte moderna como a união da falta de habilidade com a pouca imaginação. Deixou os modernos de cara quadrada. Ao final, todos tinham expressões cubistas. Mandou chumbo, por exemplo, em “Finnegans Wake”, livro de Joyce, certamente o mais ilegível e obscuro de todos os tempos, salvo a nova literatura brasileira. Conversei com Wolfe no hotel. Depois, fui o medidador na sua conferência. Ficou nervoso e tropecei nos pontos, que me pareciam pedras no meio do caminho. No hotel, perguntei a Tom Wolfe se falava francês. Eu não falo inglês. Sou um incompetente. Respondeu-me com um riso fácil e simpático:

– Não. Sou monoglota.

– Um bom americano – respondi.

– Tentei aprender espanhol – continuou ele. – Não consegui. Em 1959, meu jornal me pediu para cobrir a revolução em Cuba. Não revelei que não sabia espanhol. Fui assim mesmo. Em Havana, haviam tirado as prostitutas das ruas. Elas trabalhavam então em bares que eu frequentava à noite. Graças a elas, pude compreender Fidel Castro e o que estava acontecendo na ilha.

     Prostitutas são melhores informantes do que motoristas de táxi. Jean-Paul Sartre e Fernando Morais, pelo jeito, não conviveram com as meninas cubanas. Não sabem o que perderam. Publicaram livros sobre Cuba que não valem mais sequer um programa de quinta categoria. Praticaram o que Wolfe chama de “marxismo rococó”. Wolfe está sempre de terno branco e camisa azul. Usa grossas meias xadrez e sapatos bicolor, preto e branco. Dá a impressão de usar polainas. Lembra o Tio Patinhas. Só que é mais rico. E menos sovina. Meteu, segundo boatos admirativos e estonteantes, 150 mil dólares no bolso para vir ao Brasil rir de Joyce e Picasso. Mas nem por esse dinheiro todo quis passar o final de semana em Porto Alegre. Preferiu ficar o domingo em São Paulo.

     Teve muita gente que não gostou da sua palestra. Teve um sujeito que a definiu assim, sem mais nem menos:

– Foi a palestra mais vagabunda que já ouvi na vida. Nunca foi tão fácil ganhar um dinheirão em 50 minutos.

     Tem pior, com certeza. Tem palestra do Pedro Bial. Fiquei ensimesmado. Até certo momento, eu estava pensando exatamente o mesmo que o cara citado aí. Depois, mudei de opinião. Eu mudo facilmente de opinião. Sou volúvel. Dormi achando que tinha sido uma palestra medíocre. Acordei convencido de que foi brilhante. Parecia eu palestrando. Como todos sabem, sou extremamente modesto. Entre nós, as minhas palestras são melhores e mais articuladas. O público ri mais. Temos, no entanto, pontos em comum. Eu também acho Paris Hilton uma vadia bonitinha e sem graça. Sou menos reacionário do que Tom. Como ele, porém, acho que a ficção entregou os doces. O romance de ficção pura morreu há mais de 40 anos.  A realidade é mais imaginativa. O romance morreu. Tom Wolfe é o assassino. Jamais negou a autoria dos fatos. Nunca um crime teve tantas e boas justificativas. Vou comprar polainas ou sapatos bicolores. Para dar o Tom. Esperem!