Juremir Machado da Silva

O bem e o mal

O bem e o mal


     É um tema novo.

     Desde o Gênesis. Ou desde a gênese.

     Deus disse: Fiat lux. Nada a ver com aqueles fósforos. Quer dizer, sim, mas isso foi bem mais tarde.

     Fez-se a luz. Mas também se fez a Fiat.

     Quer dizer, a indústria automobilística.

     Nada contra. Nem necessariamente a favor.

Com a luz e os automóveis veio a velocidade.

Quanto a maior a velocidade e o número de carros altamente potentes, maior a possibilidade de se ficar parado no engarrafamento em meio à escuridão total.

     Vieram também as nações, a máfia italiana, a corrupção, a psicanálise (são associações livres), a poluição, os bruxos, os vampiros, o José Sarney e eu.

     E a teoria do acidente de Paul Virilio.

Inventou o avião, inventou a queda.

Inventou o navio, inventou o naufrágio.

Fez-se a luz. Fez-se o apagão.

E, como pretende o Macaco Simão, o “apagay”.

Inventou o bem, inventou o mal.

     Ao longo do tempo, porém, bem e mal assumiram formas diversas. Mal ou bem, bem e mal não suportam o tédio.

     Vivem de grandes metamorfoses.

     Por exemplo, os assassinos em série de Raízes do mal (sei, sei, serial-killer tem mais força), livro policial de ficção científica que eu traduzi para matar o tempo durante mais de cinco meses. Foi bem. Ou foi bom. Bem...

     No Brasil, costuma-se dizer que público e privado, bem e mal, certo e errado, verdadeiro e falso se confundem. Pode ser. Mas, se me permitem, tenho dúvidas.

     Público é tudo aquilo que deveria ser privado.

     Digamos, andar de nádegas de fora.

     Ora, por que privar o público de nádegas que podem fazer o bem geral da nação e a felicidade do povo?

     Quem mal tem em fazer o bem?

     Não gasta.

     Privado é aquilo que deveria ser público. Óbvio.

     Um emprego no Senado.

     Durante alguns anos, o PT se apresentou como bem.

     Bem supremo.

     O PT tinha projetos. Os outros, interesses.

     Como não tem bem que dure sempre, o PT se deu mal.

     Chegou ao poder. Parece que vai ficar.

     O PT já não é o bem. Faz um bom tempo.

     Segundo seus críticos, fez-se a luz.

     Agora, segundo muitos desses críticos (muitos deles completamente obscuros), o PT é o mal. Um mal absoluto.

     Daí a pergunta: que mal tem em ser do PT?

     Eu não sou. Mas poderia ser. Como diz um senador petista, se bem não faz, mal não faz. Não sei bem.

     O PT tornou-se o mal para alguns. O CPERS também. E a CUT. Ah, não se pode esquecer o MST. E o Cesare Battisti. A esquerda é o mal. Um mal incurável. E o bem?

     O bem seria Gilmar Mendes. E o STF. Bem, bem...

     Tem uma forma de mal contemporânea: o mala.

     Bem ou mal, mal ou bem, bem e mal são relativos.

     Mal é a ideologia do outro. O bem é sempre privado.

     Como pensava Jean Baudrillard, estamos vivendo a transparência do mal. Com luz demais, não se vê nada.