Juremir Machado da Silva

O Brasil nasceu na Bahia

O Brasil nasceu na Bahia

O começo de tudo

Estive em Coroa Vermelha, município de Santa Cruz Cabrália, para ver onde o Brasil dos portugueses começou. Todo mundo que viaja já foi lá. Eu não tinha ido. É engraçado ver que onde tudo começou agora tudo termina. Os índios pataxós estão lá. Têm sua aldeia, escola para ensinar a língua, lojinhas de artesanato e outros pequenos negócios. Coroa Vermelha é uma praia com grandes hotéis e pousadas que disputa as atenções com a mais badalada Porto Seguro. Nas comemorações dos 500 anos do “descobrimento” os poderes constituídos colocaram uma enorme cruz de granito no lugar onde deve ter acontecido a primeira missa rezada em Pindorama. Alguns metros depois, tem uma cruz de madeira replicando aquela que de fato foi erguida pelos conquistadores. Nada de novo.
Parece que o governo dá R$ 1 mil para cada criança índia nascida de pai e mãe índios. Deve ter uns dois mil pataxós vivendo por lá. Fiquei imaginando a loucura dos portugueses quando saltaram dos barcos naquele lugar lindo e viram aquelas índias peladas. Alguns talvez tivessem visto pela primeira vez na vida uma mulher nua. A Bahia nunca se recuperou desse choque. Transpira sexualidade. Como disse um famoso do axé, no carnaval baiano “todo mundo quer pegar todo mundo”. Até o Lobo Mau. Deve ter dado um trabalho danado para o franciscano Henrique de Coimbra, que rezou a primeira missa, aplicar aquele mandamento falando de não cobiçar a mulher do próximo. Ou isso não valia para mulher de índios? Deus deve ter providenciado para que essa primeira missa tenha caído no domingo de Páscoa. Era só contar para trás e daria no carnaval. Os baianos chegaram lá e ficaram.
A cultura vai se perdendo. Não deixa de ser bonito ver algumas índias de minissaia e outros adereços modernos circulando pelas ruas. Desagradável é ver que essa história do passado interessa cada vez menos aos locais. Um sujeito me disse que o Monte Pascoal ficava a mais de 200 quilômetros de Porto Seguro. Fica a 62 km. É verdade que o acesso de carro faz esse percurso aumentar. Dá chegar ao parque de barco partindo de Caraíva. Outro cara contou que Cabral chegou no Brasil com 1300 pessoas em cada um dos seus navios. Essa turma do Cabral não faz sucesso. O que o pessoal gosta mesmo de contar é que Jô Soares esteve em tal lugar, Ana Maria Braga em outro e assim por diante. Se duvidar, o Monte Pascoal vira o lugar de onde primeiro se avistou a Ivete Sangalo.
Apesar de tudo, mesmo com o começo de tudo, o lugar onde os “civilizados” pisaram no mundo selvagem, engolido pela vida urbana, há certa magia naquela placidez marinha. Os preconceitos continuam: “Índio é preguiçoso, só trabalha de tarde”, diz um. “Índio não se esforça, aluga tudo, pois Coroa Vermelha é uma reserva, e fica sem fazer nada”. Alguns baianos falam dos índios o que muitas pessoas dizem dos baianos. Puro preconceito. Embora as pesquisas entreguem a Bahia como o lugar no Brasil onde mais se joga lixo nas ruas e praias, o extremo sul da Bahia parece poupado dessa praga. São muitas praias limpas e lindas. É preciso tirar o chapéu para a capacidade baiana de fazer e organizar festas. Ali parece não se viver só para trabalhar. Mas se trabalha para viver. É um ideia simplória, claro. Mas fazia tempo que eu não via tanta gente fazendo festa por tanto tempo e com tanto gosto. Gente do mundo todo. Liderados pelos nativos, que não estão ali só para servir. Chega uma hora em que a hora é deles de cair na folia. E eles vão mesmo.
Não estou contando nada de original. Todo mundo sabe disso. Eu já estive inúmeras vezes em outros pontos da Bahia, inclusive no sul, e já conhecia essa atmosfera. Fiquei com a impressão, desta vez, que essa paixão pela festa só tem aumentado. Baiano fica em casa para fazer festa. Nós, gaúchos, precisamos ir longe para sacudir realmente o esqueleto. Estou exagerando. É que fico nostálgico. Eu me lembro do carnaval nas ruas do interior quando eu era criança. Parecia Rio ou Bahia. Tinha bisnaga, balde de água, homem vestido de mulher pelas ruas, blocos, brincadeira, lança-perfume e muita pegação, com outros métodos e dissimulações. Algumas coisas foram proibidas. Outras desapareceram. O que resta? Não sei. De repente, tudo continua e eu estou por fora. Ou não?