Juremir Machado da Silva

O Brasil pune demais ou de menos?

O Brasil pune demais ou de menos?

Tornou-se lugar-comum dizer que a impunidade é a lei no Brasil.
Pode-se, no entanto, afirmar o contrário sem errar: o Brasil pune cruelmente e demais.
Roubou banana? Cadeia.
Roubou galinha? Cana.
Roubou lata de leite ninho? Prisão.
Demagogia? Realismo puro.
O Brasil pune impiedosamente a plebe.
A impunidade existe apenas para a turma dos camarotes, com seus advogados, suas tramas, seus amigos, suas influências, seus contatos. Um VIP consegue habeas-corpus do STF às três horas da madrugada.
As prisões brasileiras estão abarrotadas.
Passar uma semana numa delas serve, em geral, para marcar uma vida. A reabilitação é rara. Se o sujeito não é violentado, aprende todos os truques para se afundar na carreira do crime, sem contar outras carreiras, podendo também ter tudo ao mesmo tempo, ser violentado e entrar em todas as carreiras, caindo no abismo e deixando de se abismar com sua vida. A turma da sacada acha que pagar multa é sacanagem. Inventou-se a expressão indústria da multa para desqualificar o trabalho público de multar para educar, punir e controlar as infrações.
Nossos atropeladores de ciclistas querem avançar o sinal, falando ao celular, e receber carinho, compreensão e impunidade. Aí está, muitos dos que criticam a impunidade querem mais impunidade.
De certa maneira, queremos mais punição para os outros, pois os nossos, ou nós mesmos, merecemos perdão.
A senhorita Roriz, por exemplo, dificilmente conhecerá o pulsante mundo de uma penitenciária.
O problema, como se sabe, é roubar pouco.
Tudo é muito complexo e profundo. Com licença que eu vou lá na geladeira tomar um pires de leite.