Estou em Braga, em Portugal.
Cidade barroca.
A temperatura namora com os 40 graus.
Nada se mexe.
Muito menos eu.
Leio os jornais, mas sinto vontade mesmo é de me abanar com eles.
O problema é a temperatura que emana deles.
É a temperatura da insatisfação dos portugueses com os políticos.
E a temperatura que chega do Brasil.
De repente, Portugal e Brasil estão novamente juntos.
Unidos na rejeição ao sistema.
Um amigo franco-português me diz que o Brasil está melhor por ser um gigante, por ter riquezas minerais e por ainda precisar ser construído.
– Portugal está pronto. Como avançar?
A nossa força seria a nossa fraqueza.
Visto daqui, o Brasil parece bizarro, uma potência atolada no seu esterco, um mastodonte incapaz de seguir seu rumo, uma máquina desgovernada.
– Como vocês massacram assim os seus aposentados?
Tento responder. Faço malabarismos para explicar o fator previdenciário. Diante do estupor de quem me ouve, desisto. Os portugueses são europeus. Os europeus continuam achando que a aposentadoria é sagrada. Nem sempre conseguem impor essa ideia, mas não desistem dela. O calor é insuportável. Braga é um dos berços do nosso barroco. Comento com uma mineira sobre a semelhança entre a igreja de Bom Jesus, aqui de Braga, e a de Congonhas, célebre pelas esculturas do nosso genial aleijadinho.
– Foi daqui que ele copiou - exclama.
Concluímos que a nossa é mais perfeita, mais bela e mais genial, pois Aleijadinho escondeu atrás de cada profeta um inconfidente.
Está cada vez mais quente.
Portugal e Brasil queimam juntos no passado e no presente.
O Brasil já não depende de Portugal.
Portugal agora é o dependente.
Colônia da Alemanha?
Seria um insulto.
Dependente da União Europeia.
E o Brasil?
Visto daqui? Um continente?
Não. Uma ilha.
Uma gigantesca riqueza cercada de pobreza por todos os lados.