Juremir Machado da Silva

O Brasil visto de Portugal

Foto : WASHINGTON, EUA (AFP)
Estou em Braga, em Portugal.

Cidade barroca.

A temperatura namora com os 40 graus.

Nada se mexe.

Muito menos eu.

Leio os jornais, mas sinto vontade mesmo é de me abanar com eles.

O problema é a temperatura que emana deles.

É a temperatura da insatisfação dos portugueses com os políticos.

E a temperatura que chega do Brasil.

De repente, Portugal e Brasil estão novamente juntos.

Unidos na rejeição ao sistema.

Um amigo franco-português me diz que o Brasil está melhor por ser um gigante, por ter riquezas minerais e por ainda precisar ser construído.

– Portugal está pronto. Como avançar?

A nossa força seria a nossa fraqueza.

Visto daqui, o Brasil parece bizarro, uma potência atolada no seu esterco, um mastodonte incapaz de seguir seu rumo, uma máquina desgovernada.

– Como vocês massacram assim os seus aposentados?

Tento responder. Faço malabarismos para explicar o fator previdenciário. Diante do estupor de quem me ouve, desisto. Os portugueses são europeus. Os europeus continuam achando que a aposentadoria é sagrada. Nem sempre conseguem impor essa ideia, mas não desistem dela. O calor é insuportável. Braga é um dos berços do nosso barroco. Comento com uma mineira sobre a semelhança entre a igreja de Bom Jesus, aqui de Braga, e a de Congonhas, célebre pelas esculturas do nosso genial aleijadinho.

– Foi daqui que ele copiou - exclama.

Concluímos que a nossa é mais perfeita, mais bela e mais genial, pois Aleijadinho escondeu atrás de cada profeta um inconfidente.

Está cada vez mais quente.

Portugal e Brasil queimam juntos no passado e no presente.

O Brasil já não depende de Portugal.

Portugal agora é o dependente.

Colônia da Alemanha?

Seria um insulto.

Dependente da União Europeia.

E o Brasil?

Visto daqui? Um continente?

Não. Uma ilha.

Uma gigantesca riqueza cercada de pobreza por todos os lados.