O breve século XIX brasileiro
Foi o grande historiador britânico Eric Hobsbwam que consagrou a ideia de século breve: o XX teria começado em 1914 com a Primeira Guerra Mundial e terminado em 1991 com o desabamento da União Soviética. Nunca existiu a República Socialista Federativa Soviética da Rússia denominada pela diplomacia de Michel Temer, o rei do mico, em sua recente viagem, a mesma que o levou à Noruega, onde disse que estava para encontrar o rei da Suécia e foi cobrado pela primeira-ministra por deixar correr o desmatamento na Amazônia, mesmo com o Brasil recebendo ajuda norueguesa para proteger a floresta, e instado a seguir o curso da Lava Jato e limpar o Brasil da corrupção. O século XIX brasileiro talvez tenha sido ainda mais curto: de 1808 a 1888, o ano esquecido por quase todos. Trato disso em “Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social” (disponível no Correio do Povo com descontos para assinantes).
Um século iniciado com a chegada da família real portuguesa fugindo de Napoleão e encerrado com a abolição da escravatura, que acarretaria no ano seguinte a queda do Império e a quartelada da proclamação da República em função de razões pouco imperiais e nada republicanas. No máximo, um século vivido intensamente entre a chegada da corte e a sua expulsão do país. Um olhar nostálgico e paradoxal poderia se emocionar: que tempos aqueles do final do século XIX! Lutava-se pela libertação dos escravos e pela criação da república. Outro pode se deslumbrar com o final do século XX: que belos anos! Derrubou-se o comunismo do leste europeu. Francis Fukuyama notabilizou-se resgatando a ideia de “fim da história”. Jean-Baudrillard denunciou essa ilusão do fim. A história não faz greve.
E agora? Estamos num tempo sem glória nem grandes causas pelas quais lutar? Numa entrevista, Pierre Lévy foi surpreendido com esta pergunta: “É possível usar a internet para uma revolução?” Ele sorriu com sua costumeira ironia e disparou: “A internet é a revolução”. Eis o ponto. Não percamos o foco. Este começo de longo século XXI está repleto de combates e causas: luta pela liberdade sexual; luta contra o racismo; luta contra os fundamentalismos religiosos; luta contra a miséria; luta contra a intolerância; luta contra a desigualdade econômica; luta contra a ideia de que a história acabou; luta contra novas e velhas formas de discriminação, ódio e exclusão; luta contra a corrupção. Não seria absurdo falarmos de um longo século XIX: de 1801 aos nossos dias.
A luta pela inclusão dos negros é uma continuação.
Zygmunt Bauman gostava de lembrar que a humanidade vive na busca eterna de equilíbrio entre liberdade e segurança. Quanto mais liberdade, menos segurança. E vice-versa. A insegurança não para de crescer e de engolir nacos de liberdade duramente conquistados. Na verdade, a sociedade precisa se segurar num tripé: liberdade, igualdade e segurança. Estamos perdendo terreno nesses três eixos. A segurança dos mais “livres” e iguais entre si é cheia de grades. Além disso, vamos viver mais tempo, o que significará, segundo o médico brasileiro Alexandre Kalache, doenças mais longas e caras. Um novo mundo já começou. É preciso saber navegar nas suas águas revoltas.
Numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Kalache botou o dedo na ferida que vai doer por muito tempo: "Estamos envelhecendo com uma grande parcela da população na pobreza. É um desafio grande porque não temos precedentes, modelos. Nenhum país até hoje envelheceu sem ser rico. E estamos envelhecendo rápido e ao mesmo tempo sem recursos para políticas sociais e de saúde que possam responder a uma população já muito envelhecida, como seremos em três décadas”. Trabalharemos mais. Viveremos mais. Teremos um bom final de vida? O ideal da morte rápida, súbita, fulminante perderá espaço para nossa longevidade assistida por novos medicamentos e condições de saúde. Em que termos?
Cada época tem suas lutas. Quem sabe chegaremos a vencer o racismo e o preconceito sexual. Seriam duas extraordinárias vitórias jamais alcançadas em século algum. A história não para nem anda em linha reta. Os conflitos religiosos voltaram. Já revolucionamos o mundo graças ao saber científico que tem espichado nossa existência. No caso brasileiro, porém, ainda não encontramos solução para a violência que mata milhares de homens jovens negros a cada ano. Deixamos para trás as guerras mundiais com seus milhões de mortos. As causas pelas quais lutamos hoje são tão sérias quanto às de ontem. Algumas, são as mesmas. O tempo da mudança de imaginário é lento.
Por que o Brasil demora mais que outros países a dar o grande salto para mais segurança, igualdade e liberdade? Terá sido um mau presságio “começar” o século XIX com uma realeza fujona e chegar a independência pelas mãos de um príncipe estrangeiro e malandro? Ou o passado não consegue atingir o presente com suas marcas polêmicas? Precisamos esperar muito deste já longo século XXI de menos de 20 anos e muitos acontecimentos graves e assustadores. Necessitamos que ele encerre, enfim, os breves séculos XIX e XX, que já foram longe demais.