Juremir Machado da Silva

O bruxo, o vampiro e o marketing

O bruxo, o vampiro e o marketing

Escrevi esta crônica em 2003. Passados seis anos eu trocaria bruxo por vampiro. E manteria o resto. Confiram:

Não quero decepcionar ninguém nem bancar o paranóico, mas preciso dizer uma coisa: Harry Potter é agente da CIA. Pior: nas horas vagas, trabalha para o FMI. Já foi, inclusive, operador financeiro do Soros. Atuou com o Armínio Fraga. Entre as suas muitas habilidades está a de ser clone em miniatura de Paulo Coelho. A missão de Potter é a globalização do esoterismo pós-humano.
Nada mais espontâneo. Os marqueteiros de Potter estabeleceram um plano e a mídia internacional fez tudo para não decepcioná-los. Potter, no dia e hora marcados, foi reportagem especial dos maiores jornais. Tudo baseado num argumento irrefutável de qualidade: vende. A mídia não se constrange em ser correia do marketing internacional. Engraçado, em outros casos de publicação, mesmo de autores consagrados, não há a mesma pressa em divulgar os lançamentos. Uma das mágicas de Harry Potter é não deixar ninguém esquecer dos seus interesses comerciais.
Os mais simplistas falam em jabá. Potter não pode ser acusado de desonestidade. Bruxos nunca mentem. Fazem indução seletiva. O problema é mais complexo: jornalistas não resistem a uma campanha de marketing. Ficam excitados com a isca mais simplória dos marqueteiros culturais: a revelação de um extraordinário segredo da nova história. Até o mote disseminado por Potter rendeu: uma revolução literária. Qual o segredo? Ludibria até adultos pretensamente informados. Não há divulgação da estratégia. Somente promoção do evento.
Para um agente do capitalismo internacional globalizado, Potter funciona com as mesmas armas viróticas de Matrix e de certas bandas de rock: explora, por contágio, a síndrome de rebanho dos humanos. Potter para crianças; You Two para adolescentes; Paulo Coelho para adultos espirituais; Matrix para “intelectuais”. É uma cadeia que deve começar na infância. Não paro de consumi-los. Devoro-os como chips até ficar de barriga inchada.
O principal argumento dos defensores de Potter é de que ele desperta a paixão pela literatura. Conversa de vendedor de enciclopédia. Aguça o interesse pela leitura como Paulo Coelho. Serve apenas para querer ler mais Paulo Coelho. E encher a casa de porcarias mágicas. Cuidado com Potter: é o Michael Jackson disfarçado de Peter Pan. Não faço mais nada: vivo para Potter, U2, Coelho e Matrix. Cheguei ao meu eu profundo.