Juremir Machado da Silva

O camelo, a mídia e o futebol

Há uma piada, citada como epígrafe no livro Pensamento 68, que, tomada de empréstimo, traduz bem o estado das conclusões a respeito da relação mídia, violência, formação de jovens e jogos de futebol.

Tendo por tema de pesquisa o camelo, animal deveras fascinante e simpático,  o francês passa meia hora no zoológico e, na volta, escreve uma dezena de páginas picantes e cheias de tiradas espirituosas.

O inglês passa três anos no deserto e, de retorno, escreve um tratado factual de 600 páginas, sem introdução nem conclusão, nem teoria unificadora, mas com desorganizado valor de realidade, um relatório pesado e cru.

O alemão tranca-se no quarto e, cheio de desprezo pela frivolidade do francês e a indigência teórica do inglês, escreve uma suma intitulada “Da ontologia do camelo segundo a concepção do Eu”.

 E o brasileiro? O brasileiro pensa em ir ao zoológico, mas acha que é um programa de índio. Desiste. Tenta ir ao deserto, mas não obtém financiamento . Promete refazer o projeto e tentar outra vez. Mas esquece. Cogita de trancar-se no quarto e conceber uma “ontologia da vida camela”, mas chega o verão e é impossível ficar fechado enquanto o sol brilha lá fora e a sedução cobra a sua taxa aos vivos e mortos. Então o brasileiro dá um jeito: olha meia hora de televisão, um documentário do GNT, pega o artigo do francês, a etnografia do inglês e a suma do alemão, junta tudo, salpica de citações um texto híbrido e chama isso de “Uma introdução antropofágica ao problema do camelo na sociedade do espetáculo”.

Assina: Fulano de tal, PhD pela University X.

Sobre a televisão, como sobre o futebol, todo brasileiro tem um tratado pronto. Há mais respostas do que perguntas, mais certezas do que dúvidas, mais verdades do que problemas. A pesquisa empírica, embora cada vez mais volumosa, parece não dialogar com as reflexões teóricas, as quais se contentam em divergir do mundo da vida. O crítico da televisão não se rebaixa a ver televisão. O defensor, não perde tempo com críticas teóricas.

Os discípulos da Escola de Frankfurt, referência da crítica da mídia, já conhecem de antemão todos os mecanismos da televisão e da indústria cultural. As variações de conteúdo só viriam confirmar a regra. Logo, a não ser escondidos, não olham TV, embora se permitam escrever longas artigos sobre a futilidade de novelas que não viram. Ou que fingiram não ver.

Os funcionalistas acham que mídia só dá às pessoas o que elas pedem. Em contrário, poderiam mudar de canal. Não sabem que o controle da televisão é sempre remoto. Assim, entre “apocalípticos e integrados”, o mundo da mídia continua a gerar a mesma perplexidade. Na falta de um culpado, dado que não há mais referência, inventa-se um pai desnaturado para que seja designado e punido como culpado.

Qual a relação disso com os jovens?

Os jovens são os camelos da mídia.

Qual a relação disso com o futebol?

O futebol é a mídia do camelo.

Entendeu, caro leitor?

Não?

Trate de entender por conta própria, que eu não posso explicar tudo.