Juremir Machado da Silva

O Correio do Povo e a Revolução de 1930

O Correio do Povo e a Revolução de 1930

Em 1º de outubro de 1930, Porto Alegre agita-se. O Correio do Povo, o mais pulsante meio de comunicação do Rio Grande do Sul, festeja seus 35 anos de existência. André Carrazzoni, novo diretor de redação, destaca em editorial a tradição apartidária do veículo e sua seriedade. Mas, como mostro em “1930: águas da revolução”, o jornal adere totalmente ao movimento revolucionário. Serão dias de grandes emoções. Em 2 de outubro, morre Honório Lemes, o Leão do Caverá. No dia 3, a revolução estoura. Nada como voltar às páginas do Correio do Povo para, neste dia em que ele completa 115 anos, reler aqueles editoriais de 80 anos atrás. Num deles, a revolução será defendida como um bem nacional:
“Ainda não está encerrado o ciclo de lutas cívicas aberto pelos brios rio-grandenses em memorável revolta. Rendido o governo do Estado ante a formal intimativa da opinião, que ele não soubera patrioticamente acatar, os últimos sucessos não podem ter ainda a solução de continuidade de que muitos julgam oportuna e necessária. Ainda há um inimigo a combater no Centro, ainda o dever impõe a urgência de avigorar energias para refletir com altivez os ataques do despotismo. A revolta rio-grandense nobre e patriótica foi inspirada na defesa de princípios desrespeitados e da dignidade cívica menoscabada”.
O tom é épico. A ordem é não ceder um centímetro diante das pressões inevitáveis: “Os princípios e a dignidade ainda exigem do povo do Rio Grande mais alguma coisa de sacrifício. O general Deodoro, violento e inepto, senão insuflado por maus companheiros, num ímpeto raivoso de onipotência bastarda, não vacilou em rasgar a Constituição que ele jurava respeitar e fazer respeitada. Foi uma afronta atrevida, atirada com menosprezo incrível às faces da Nação soberana. O povo rio-grandense (…) teve o desassombro bastante para lavar grandioso protesto contra o ato inconstitucional do ditador desvairado (…)” O exemplo precisa ser seguido à risca: “A luta foi ferida nobre e lealmente, e o êxito do levante coroou com brilhantismo a obra meritória da dignidade em rebeldia”.
A tomada de Porto Alegre é apenas o primeiro passo de uma marcha nacional: “Agora, pelejadas as primeiras pugnas, triunfantes as aspirações da boa causa, é chegado o momento decisivo de dar-se à ação uma nova feição característica, oferecendo ao mundo, civilizado e à história destes tempos o magnânimo exemplo de um povo inteiro a bater-se unido pela liberdade (…) Mais que nunca, é mister que todos os rio-grandenses constituam uma grande família heroicamente vinculada pelos elos do patriotismo”. O Correio do Povo está na linha de frente. Fará uma campanha de arrecadação de fundos para o novo governo. Correio do Povo e Revolução de 1930 fazem parte de uma mesma história, uma história vitoriosa. Aniversariam quase ao mesmo tempo. Estiveram juntos no passado. Continuaram juntos no futuro. Para sempre na História. Como se dizia na época, de “pé pelo Brasil”.