João sempre teve uma tara pela urna. Sonhava com ela. Via-se na cabine indevassável confessando seus medos ideológicos à urna. Lembrava-se do tempo em que urna era urna, com uma fresta para enfiar a cédula, e tinha sonhos eróticos. Lamentava não ser mais possível escrever frases de protesto no papel com o voto. Certa vez, muito jovem, escrevera com uma caneta vermelha: "Todo poder emana do povo". Sentira-se um revolucionário. A urna eletrônica ainda era uma mistério para ele. Não seria facilmente violável? Não se prestaria a fraudes de todo tipo?
A urna eletrônica era o assunto preferido de João nas suas conversas com os amigos.
Faltando três dias para o segundo turno, ele se abriu com a mulher:
– E agora?
– Agora o que, homem de Deus?
– O que vou dizer para ela?
– Ela quem, homem de Deus?
– A urna.
– Ora, urna não fala.
– Não fala, mulher, mas ouve tudo o que gente diz e pensa.
– Que loucura é essa agora?
– Diante da urna, mulher, a gente fica nu.
– Deus me livre e guarde de ficar pelada atrás daquela cabinezinha de papelão.
– A urna é como um confessionário, mulher, onde não se pode mentir.
– Sei, sei, mas tem gente que peca até na hora de se confessar.
– Eu nunca fiz isso, mulher.
– Sei, você não é normal.
– Só de pensar no que vou dizer para a urna no domingo, mulher, fico com palpitação.
– Não diz nada.
– Não posso. É mais forte do que eu. Preciso me manifestar.
No domingo, João se arrumou como se fosse para um casamento. Entrou na cabine com ar compungido. Olhou para a urna como se olhasse para a Bruna Marquezine. Melhor, para a Vera Fischer nos seus áureos tempos.
– Seja o que Deus quiser – foi tudo o que conseguiu dizer.
E cravou um número na tela.