Juremir Machado da Silva

O filho da Florência

O filho da Florência


Cresci, em Palomas, ouvindo um programa chamado “Velho Rancho”, na Rádio Cultura de Santana do Livramento. Aos domingos, ouvíamos o programa “Falando de tradição”, apresentado pelo Lenço Branco. Nesses dois programas, tocava muito o trio maior da música gauchesca: Teixeirinha, Gildo de Freitas e José Mendes. No Lenço Branco, sempre aparecia para tocar um sujeito apelidado de Mário Zan da Fronteira. Tocava pouco, mas com amor. O apresentador do “Velho Rancho” tinha uma bela voz aveludada. Acho que a trilha do programa era aquela canção linda conhecida como “homens de preto”.
Eu gostava mesmo era do José Mendes.
Um tio meu, que morreu há poucos anos, chamava, de vez em quando, minha tia, que também faleceu neste mês de abril, de Florência. “Tchê, Florência vamos tomar um mate”. Era uma referência a uma música de José Mendes e de Oiram dos Santos.
“Chê Florência, quero lhe falar
Vem cevar meu mate, Florência, vamos descansar.
Olha o nosso campo, Florência, dá gosto de ver
Tem tudo plantado, e o que tem dado dá pra viver;
Temos lá no pasto, Florência, de bom parecer,
Animal de monta e vaca leiteira para escolher.
Olha a nossa casa, Florência, já se esvaziou
Pois a filharada, toda formada já se arrumou;
Trabalhamos tanto, Florência pra ver tudo assim -
E o mais bonito foi nosso amor que não teve fim.”

Eu gostava dessa conversa ao pé da casa. Ontem, fui a São Sepé, onde me honraram com o título de patrono da Feira do Livro. Fui com o Pedro Paulo, o Pepé, conhecido livreiro de Cachoeira e agitador cultural pelo Estado.
Adorei a Feira de São Sepé.
No caminho, Pepé me fez uma revelação que me arrancou de um cochilo: é sobrinho de José Mendes.
Filho da Florência.
Tem 11 irmãos.
Fiquei atônito.
Meu primeiro trabalho de rádio para a faculdade, veiculado na Rádio Real de Canoas, foi sobre José Mendes.
Rodamos “Tchê Florência”.
Perguntei por Roberto Mendes.
Por José Mendes Júnior.
Por Dona Florência.
Está viva. Perdeu o marido em abril.
Cheguei a duvidar. Será que o Pepé estava me contando uma história, uma boa história, uma fábula?
Ele me falou das agruras de Dona Florência, criada longe da família, extraviada no Paraná, do reencontro com o irmão, já famoso, e do orgulho de todos pelo sucesso do autor de “Para, Pedro” e “Não aperta, Aparício”.
Tenho Cds de José Mendes na minha gaveta, escondidos de meus amigos afetados, entre cds de Beethoven e de Mozart. Gosto dessa mistura de estilos e de gêneros.
Popular e erudito.
Regional e universal.
Só uma coisa me intriga: por que José Mendes fez uma canção de amor, de marido e mulher, com o nome da irmã?
“E o mais bonito foi nosso amor que não teve fim.”
Nunca tinha pensando na minha vida em conhecer um filho da Florência. Que história! Até parece ficção!
Uma crônica.