Quando a polícia chegou, o capitão estava em pé, do lado de fora, enchendo os pulmões de ar fresco. Carregava consigo a inseparável companheira, uma pistola austríaca. Desde que se tornara foragido, não se separava dela, mesmo quando encontrava a família. Chegou a sorrir. Havia mais de um ano que vivia em fuga sem se esconder. Usava o próprio nome, participava de eventos públicos, fazia negócios, cavalgava, hospedava-se em lugares caros com mulher e filhos, tocava em frente. Apenas trocara de Estado. Sentia saudades do seu reduto. Continuava comandando as suas tropas. Em poucos anos, passara de figura exemplar de batalhão de elite a presidiário e de presidiário a miliciano.
O cerco, porém, vinha se fechando. Viu a aproximação da polícia sem medo nem surpresa. Uma semana antes quase fora pego num momento de descontração com os seus. Fugira de maneira espetacular pulando muro, atravessando pântano, cruzando a nado uma lagoa e correndo por horas em lugares desertos. O treinamento recebido fizera dele um homem blindado. Agora, sabia que era o fim. Ainda assim, tinha um poder: decidir como tudo acabaria. Podia se entregar e ser preso. Podia morrer atirando. De repente, começou a ver o filme da sua vida. Então, pensou, era verdade essa história de filme da vida quando o fim se aproximava? Viu-se menino na periferia da grande cidade. Viu-se adulto de arma na mão.
Achou estranho morrer com amigos no poder. Se fosse capturado, teria muito a contar. Mas contaria? Fora treinado para suportar pressões. Se morresse, deixaria uma memória: 13 celulares. Tentou calcular mais uma vez quem mais ganharia com sua morte. A memória artificial jamais revelaria todos os seus segredos. Lamentou morrer tão próximo do carnaval. Lamentou morrer tão novo. Admitiu que sabia desde muito tempo que não viveria para escrever suas memórias de capitão de milícias. Alguns dos seus amigos chorariam a sua morte em privado e a comemorariam em público? O contrário? Ou sentiriam e vibrariam ao mesmo tempo? Pode ver que um pequeno exército se aproximava. Como agiriam?
Havendo lógica, fariam tudo para pegá-lo vivo. Em princípio, não podia interessar-lhes a queima de um arquivo tão precioso como ele. Podia recebê-los à bala forçando-os a matá-lo. Morreria como um Lampião? Prestaria um bom serviço a quem se beneficiasse com a sua morte. Se sobrevivesse, passaria anos na cadeia, mas poderia sonhar com a liberdade algum dia, ainda mais que sabia dos podres de muita gente. As lembranças da cadeia o assombraram. Já sentia o hálito pesado dos seus caçadores. Num salto, recuou para dentro da casa que lhe servia de esconderijo. Entrincheirou-se. Mais uma vez, pensou logicamente que o cerco poderia ser longo. Afinal, cabia à polícia vencê-lo pelo cansaço. Algo lhe dizia, no entanto, que não seria assim. Já se sentia morto.
Pensou que ninguém jamais saberia dos seus últimos pensamentos e que nunca tinha imaginado morrer de maneira tão simplória. Quantos poderia matar com sua pistola capaz de disparar feito uma metralhadora? Teve tempo de pensar que seria notícia nos principais jornais. Imaginou o que diriam: miliciano leva para o túmulo segredos que poderiam abalar a República. Não gostava da mídia. Achava que a mídia não entendia o seu papel inicial matando vagabundos. Odiava ser chamado de vagabundo. Jurou que não passaria a vida na prisão, que nada revelaria se o pegassem vivo e que não aceitaria humilhações. Lembrou-se das honrarias recebidas, das visitas na cadeia, de promessas e de projetos em curso.
Não, a polícia não invadiria a casa. O que ganharia com isso? Sendo a força de um Estado de oposição aos seus supostos amigos e protetores, como diziam muitos dos seus inimigos, pegá-lo vivo era a grande jogada. Sairiam dali com um troféu. Mas ele sabia por experiência que em certos momentos a adrenalina sobrepõe-se à razão. Revisou em segundos tudo o que sabia. E sabia muito. Fariam um dia um filme sobre a sua vida? Chegou a perguntar-se quando foi que tudo tinha começado a virar. Quando foi que o seu caminho havia bifurcado? Estava ali diante do seu destino. Bastava dar um tiro para ser metralhado.
Recebeu a primeira bala com espanto. Rodopiou. Então, ansiosos, eles não o cercariam, não o forçariam a render-se, não espicaçariam os seus nervos até que se entregasse ou esvaziasse sua pistola, não o obrigariam a fazer cálculos sobre riscos, não o submeteriam aos procedimentos, não teriam a paciência para transformá-lo num troféu a ser exibido em praça pública e em vídeos no Youtube? Quem diria que seria aliviado de tantos fardos e responsabilidades por quem tinha a obrigação de capturá-lo para que desse o serviço e quem sabe comprometesse graúdos? Tivesse tido tempo, poderia ter agradecido. Uma pergunta, porém, ocupava a sua mente quando o segundo tiro o sacudiu.
– Por que não esperam?
A eternidade começou mais cedo do que podia esperar.