Juremir Machado da Silva

O governo queria plebiscito?

Trocando de posição

 

A política é uma bela arte. Eu tento compreender a dança das posições e dos argumentos. Ouço falar bastante em coerência. Tento entender o que significa. Às vezes, fico confuso. Seria coerência a capacidade de ser estrategicamente incoerente? O governo do Rio Grande do Sul aprovou na Assembleia Legislativa a autorização para extinguir as chamadas fundações. Os que se consideraram lesado foram à justiça impedindo o cronograma do Piratini de seguir seu tempo. Amuado, o governo lembrou que todo o poder emana do povo e que não se pode impunemente anular as decisões tomadas pelos seus legítimos representantes. Perdeu no voto, acatou.

Ao longo do mandato o governo tentou mudar a constituição estadual por meia da emenda para poder vender estatais. A oposição não deixou e provocou: se quiser vender estatais que submeta a ideia, conforme a lei, a um plebiscito. Não rolou. No apagar das luzes, sem voto para vencer pelo atalho da emenda constitucional, o governo foi em busca do plebiscito. Mudou de posição. A oposição também: passou a não querer nem ouvir falar em consulta ao povo. Depois de muitas escaramuças, com obstáculos de toda ordem regimental, foi-se ao voto no plenário. O governo perdeu. Parte da sua base, favorável às privatizações e ao plebiscito, votou contra. Alegação: não seria conveniente misturar o tema com a eleição do novo governador.

Derrotado, o governo fala em ir à justiça. A decisão dos representantes do povo não deve ser respeitada neste caso? Mais do que isso: o governo pensa em ir à justiça para que não seja preciso realizar o plebiscito. Estou muito confuso. Afinal: o poder emana do povo e as decisões dos seus representantes devem ser respeitadas ou só se deve fazer isso quando se ganha? O governo é a favor ou contra o plebiscito? Quer ou não quer dar ao povo o direito de decidir? Tudo parece tão nebuloso. Mas é cristalino: o governo só quer vender as estatais. Não importa o método. De preferência sem consultar popular. Já a oposição não quer saber de privatização. Se for necessário, para impedir as vendas, fala em plebiscito. Se puder, foge dele. E o PSDB nisso tudo?

O PSDB era governo e ainda tem gente no governo. Na questão do plebiscito, porém, virou oposição, embora a oposição seja contra privatizações e os tucanos sejam privatistas. Acontece que, tendo candidato ao governo, o PSDB acha que eleitoralmente não seria uma boa misturar o plebiscito com a eleição. É simples: por cálculo eleitoral o PSDB votou contra o que sempre defende para não favorecer uma manobra considerada eleitoral de José Ivo Sartori. O governo, que não deixou de pensar eleitoralmente, acusa o ex-aliado de pragmatismo eleitoreiro.

Como se vê, com clareza e elegância, todos coerentes. Cada um mudou de posição, adotando a que antes negava e o adversário defendia, para melhor preservar seus princípios. Conclusão: consulta-se o povo se for incontornável. Foge-se dele sempre que for possível. Embaralhadas as cartas, o povo se perde. Se reclamar, é acusado de contradição e ideologia.