Duas convicções: o ser humano precisa se manter ocupado e somos crianças para sempre. Temos de canalizar a nossa energia para algum lugar. Fazemos isso melhor quando acreditamos que se justifica por um valor maior. Ficar ocupado para não ficar desocupado é circular. Melhor convencer de que toda uma engrenagem exige essa ocupação. A criança que somos quer brincar. Baixei o filme de Wagner Moura sobre Carlos Marighella repassado no WhatsApp. Quando soube que era sacanagem, já era tarde. Parei de ver o filme numa cena de tortura. Melhor dizendo, numa cena de agressão física precedendo a sessão de tortura. Não tive mais estômago para seguir.
Uma das cenas mais insuportáveis que vi. Não é culpa do diretor, mas da ditadura que a praticou. Escaldado, fui ver “O grande Ivan”, filme da Disney, indicado para o Oscar 2021. Uma história para crianças como eu. Fiquei surpreso ao saber que inspirado em fatos reais: um gorila pintor mantido no subsolo de um shopping americano para apresentações ao público. O filme amplia a intriga com uma dengosa menina elefante, um vira-latas muito esperto, um coelho bombeiro, uma galinha jogadora de basebol, uma foca enjoada da bola, uma velha elefanta em fim de carreira e uma cadelinha vaidosa. Todos falam e todos sonham com a liberdade. Eu me derreti. Quando os bichos fogem, precisam atravessar uma avenida. A galinha se propõe a ir na frente para ver o que tem do outro lado. É uma brincadeira inteligente com uma velha questão filosófica: por que a galinha atravessou a rua? Eu me diverti muito e fiquei bem ocupado.
Se continuar assim, verei a Galinha Pintadinha. Preciso consultar minha agenda. Quero ser comovido, sensibilizado, encantado. Depois de ver O grande Ivan, relato da vida prisioneira de um gorila sensível e saudoso da liberdade e da terra natal, mudei minhas escolhas: daria o Oscar de melhor filme de 2021 a esse longa que me pareceu o mais curto dos últimos tempos. Quando vi, já tinha acabado e eu queria mais. O que me cativou? A defesa dos animais, a sensibilidade da elefantinha, o senso ético do gorila, a malandragem do vira-latas, a melancolia da foca, a resiliência do coelho, a tristeza serena da velha elefanta, a “coqueteria” da cadelinha fashion, a fofura da menina que entende esses bichos todos.
Nenhum gosto é impositivo. É mais cruel do que isso: alguns serão amados, aplaudidos, adorados, comprados e adotados. Outros, não. Haverá também quem seja muito consumido e não obtenha reconhecimento de certo círculos. Pode-se desmontar as pretensões universais do gosto. Não se pode, porém, obrigar alguém a gosta daquilo que a pessoa não gosta. Não há verdade na hierarquia do gosto, exceto uma: alguns farão sucesso; outros, não. Alguns obterão mídia espontânea; outros, não. O que mudou? Talvez a postulação de que nenhum gosto seja criticado. Gosto, digo. Não gosto, calo. Morte da crítica por falta de parâmetro. Ela volta pelos fundos: tal obra é ovacionada, recomendada, adorada. Grande, Ivan. Valeu mesmo.