Juremir Machado da Silva

O homem que diz ter ajudado a matar Jango

O brasileiro Volnei Correia e o uruguaio Mario Neira Barreiro são personagens fundamentais de meu livro “Jango, a vida e a morte no exílio”(L&PM). Na eternidade das prisões pelas quais passaram, eles escreveram um livro, “Entrevista de um réu confesso”. Encontrei os dois em Charqueadas. No livro, Mário apresenta-se como ex-agente secreto e como participante da Operação Escorpião, montada, segundo ele, por Geisel (Ernesto ou Orlando), com a colaboração do serviço secreto uruguaio, para eliminar Jango dentro dos quadros da Operação Condor. Um trecho do livro deles pode dar ao caro leitor uma ideia mais precisa do teor das suas revelações, confissões, comentários e conversas. Cada linha traz uma surpresa, algo chocante, extraordinário, inquietante. Por exemplo, a operação nos céus do Mato Grosso para eliminar militares da linha dura que se opunham ao processo de abertura bancado por Geisel e odiado pelo general Frota..

 

Volnei  - Afinal, foi a Inteligência ou o Serviço Secreto quem solicitou a "Operação Escorpião"? Quem "o queria morto a qualquer preço"?

 

Mário - Quem solicitou a "Operação Escorpião" foi o Serviço Secreto do Brasil. Só que alguns  radicais de outros serviços de Inteligência, como o SNl e o DOI-Codi e o DOPS queriam também eliminá-lo desde muito antes e não contavam para isso com o consentimento do governo. Geisel tinha um plano traçado e o executou na surdina do seu ministro da Guerra e dos serviços da Inteligência do Brasil. Quando Geisel saiu da Presidência, seu caminho estava livre dos opositores mais importantes: "a nova democracia não teria as velhas lideranças". Serei ainda mais claro: o mais certo não seria dizer quem solicitou a

"Operação Escorpião", mas quem a ordenou. Assim, foi uma determinação emanada do governo do Brasil, do então presidente Ernesto Geisel, através do seu Serviço Secreto.

 

Volnei - Então, além do Goulart;.,. ·Juscelino, Lacerda ...?

 

Mário -Adhemar ... Marcos Freire ... Guimarães ... !

 

Volnei - Foram eliminados?

 

Mário -É muito provável, você não acha?

 

255-Volnei -É uma barbaridade! Não posso acreditar numa coisa assim! Tantas pessoas assassinadas?

 

Mário - Pode acreditar, se quiser. .. E, para afastar suas dúvidas, vou citar um caso bem anterior ao  "Plano Trabis". Lembra-se que O general Frota, quando ministro da Guerra, foi imprevistamente destituído  do seu cargo, sem que isto fosse explicado muito claramente? Disseram que tinha articulado um plano para derrocar Geisel e este, ao tomar conhecimento do fato, o citou às 04:hs da manhã, do dia 12.10.1977 e O substituiu pelo general Fernando Belfort Bethlem que, na época, comandava o III Exército, com sede em Porto Alegre e o deixou em arresto domiciliar?

 

Volnei - Ouvi falar e li alguma referência muito parca em relação a esse acontecimento. A destituição teve alguma conexão com a eliminação de dissidentes?

 

Mário - Teve a ver com muitas mortes, mas desta vez a eliminação foi de adversários que integravam a instituição militar. Pouco tempo depois dessa tentativa frustrada de "golpe dentro do golpe", Geisel ordenou manobras militares no Mato Grosso e mandou um avião Hércules C-130, da FAB, com 85 militares para supervisionar as manobras. Esses altos oficiais, generais, coronéis, majores, capitães etc., eram, coincidentemente, todos amigos do Frota e, supostamente, teriam sido os conspiradores do fracassado golpe... você acha que foi um acidente aeronáutico apenas? Os destroços e os corpos mutilados ficaram espalhados por muitos quilômetros... Comentou-se que foi uma bomba relógio instalada na cauda da aeronave, para limpar a casa... Aí morreram 85, apenas por urna simples suspeita! O homem não era de perdoar: perante uma simples dúvida, fez uma devassa de castrenses. Se não teve contemplações com seus

camaradas de farda, que se poderia esperar que fizesse com políticos que eram seus opositores e num futuro imediato se transformariam em perigosos inimigos potenciais?

(Silêncio no local da entrevista... Chovia forte... Um relâmpago... Acreditar?! Ninguém gostaria, ninguém quereria...Ou sim?! Desmandos radicais de quaisquer lados ou ideologias que ficassem no passado, que nunca mais ressurgiriam...Mas era preciso talvez lembrar e reinstalar a verdade, sem seus véus diáfanos e "institucionais", para que o "NUNCA MAIS" se concretizasse, utopia que isso fosse... Então, Entrevistador e Entrevistado relembram, retornam reiterativamente aos temas, refazem rostos, ações, palavras, personagens...)

Volnei -Você diz que não se acha culpado de ministrar o composto químico que matou João Goulart, mas sim de ter participado nos atos preparatórios do crime e não ter feito nada para impedi-lo. Se for aberto um processo para apurar os fatos, pensa que será punido com uma condenação severa ou será absolvido, por extinção da pena ou anistias?

 

Mário - Veja bem: ser condenado ou não para mim não seria um fato tão temível, afinal de contas estou condenado por algo que não fiz. Seria bem melhor estar preso por algo do qual verdadeiramente tenha sido responsável. Com relação à extinção da pena, para que isso ocorra deveriam ter transcorrido 30 anos do homicídio e ainda não se cumpriram 26 anos. Sobre a anistia, ela me absolveu do que fiz DO meu país. Não sou jurista e não sei se a lei de anistia pode vigorar extraterritorialmente. Não me preocupo com isso, pois é a Justiça quem deve determinar o que for, mas tanto tenho sofrido por fatos dos quais sou inocente, acho que, se de algo sou culpado, já paguei com acréscimos.