O imaginário do futebol pós Abu Dhabi
Centroavante de bigode não dá certo.
É possível que seja uma frase de Nélson Rodrigues. Mas poderia ser de qualquer um. Deve ser isso que se chama de fenômeno de co-autoria deslocada no tempo e no espaço.
Meu avô, que nem era fã de esportes e nunca leu o cronista maldito, pois era analfabeto, mandou instintivamente o filho raspar o bigode para fazer mais gols. Não deu certo. O problema era outro. A ginga não estava no sangue.
São coisas assim que o senso comum sabe. Só falta a ciência observar e sistematizar. O último centroavante de bigode no Brasil, nos anos 1990, foi um certo Valdir, que não deixou saudades e ficou com certeza bem longe dos mil gols.
O futebol tem o seu imaginário. Outra quase impossibilidade é goleiro de barba. De resto, os jogadores estão sempre bem escanhoados. Deve ser uma imposição do esportivamente correto. Em todo caso, centroavante de bigode é uma impossibilidade lógica. Ainda mais para fazer gol de bicicleta. Desafio os estudiosos e os estatísticos a apresentarem dez gols de bicicleta feitos por bigodudos. A verdade é simples e universal: nem centroavante muçulmano faz gol de bicicleta sem tirar a barba. Salvo por um pecado.
Onde goleiro passa não cresce grama.
É outro clichê de futebol.
Faz sentido.
Vida de goleiro é triste.
Olha o jogo dos outros.
Dificilmente pode sair correndo e dançando, driblando, brincando. A sua melancólica sina é ficar parado, sendo xingado, recebendo pancada, desprezo, salário menor e admiração reduzida. É o último a sair para o exterior.
Em geral, os goleiros só se tornam decisivos na idade em que os outros já estão encerrando a carreira, pelos 36 anos. As garotas não suspiram por eles, embora estejam mais perto. Claro que há exceções. Leão, por exemplo, fez sucesso cedo. As mulheres adoravam as pernas dele. Longas pernas de um David brasileiro. Um goleiro, porém, vive das duas mãos. Era como se Leão tivesse inúteis pernas belas, que só serviam, como dois postes na pequena área, para ser admiradas pelas raras torcedoras que se aventuravam nos estádios do seu tempo.
É sabido que todo jovem sonha em ser centroavante.
É a posição do matador. A sua lei é botar para dentro.
No imaginário do futebol essa frase se presta aos jogos de duplo sentido.
O centroavante é um comedor. Come a bola, as fãs, o gramado, a vida.
Ganha mais dinheiro do que todo mundo e povoa as fantasias de adolescentes de ambos os sexos. Atenção: o centroavante raramente é bissexual. Muito menos hermafrodita. A camisa dez, imortalizada por Pelé, Maradona, Zico, Zidane e tantos outros, também faz brilhar os olhos dos meninos. Parece que com o dez às costas o jogador transfigura-se. Ou mostra um talento enorme ou é imediatamente condenado a tarefas menos nobres.
O meio-campista pode ser baixo e magro, tímido e feio. Basta que levante a cabeça, olhe o campo e distribua o jogo como um rei. Pode usar cabeça raspada, cabelo longo e até bigode. Mas não pode ter pé grande.
Quer dizer, o pé do cérebro do time deve ser proporcional ao seu corpo. Qualquer desproporção e tudo dá errado. Jamais um armador de pé grande brilhou de fato em campo.
O futebol, como diria Pierre Bourdieu ou Michel Houellebecq, é um sistema de hierarquia social.
O jogador pode ser rebaixado de centroavante a zagueiro ou promovido de lateral a meio-campista.
Há casos registrados em que o centroavante virou goleiro. O contrário é bem mais raro. A cada posição corresponde uma faixa salarial e um quinhão de prestígio. A distinção é a regra máxima do universo futebolístico.
No passado, a mais desvalorizada das posições era, como já se indicou, a de guarda-balas.
Era o que sobrava no futebol para quem não sabia jogar futebol. Isso mudou razoavelmente.
Hoje, a posição menos admirada é exatamente aquela mais em alta entre os treinadores: volante. Jogava-se com um volante (chamado de centromédio). Agora se joga com dois, três, quatro e, podem acreditar, já houve um grande time brasileiro que entrou em campo com sete volantes.
O volante é uma figura concreta. Não flutua. Patrola. Não corre. Lavra. Não joga. Desarma, combate, destrói.
Não existe no imaginário. Ninguém sonha em ser volante. É uma condenação.
Há volantes que morrem solteiros ou só conseguem casar depois da aposentadoria.
Parece que o número de suicídio de volantes é o mais elevado entre os jogadores de futebol. Vida de volante é terrível. Não é incomum que a namorada de um volante o troque por um centroavante, por um meia-atacante, por um ala (por lateral já é mais difícil) ou até por um goleiro reserva. Conheci uma mãe que insistiu para que o filho escolhesse a escolinha (de futebol) em lugar da escola de conhecimentos.
Questão de futuro, dizia, querendo o melhor para o seu rebento. Quando, porém, o filho disse-lhe que o treinador o escalaria de volante, ela reagiu implacavelmente: “Melhor ser dentista”. O futebol é um discurso, uma construção, uma narrativa, um jogo de imagens insólitas e uma fábula que cada torcedor conta a cada dia para si ou para os outros como se fosse nova.
Cada lance no futebol tem a sua correspondência discursiva.
Joga-se no campo para que os torcedores possam dar seus lances argumentativos, provocativos e taxativos nas arquibancadas, nos bares, nas ruas, por toda parte. O torcedor de futebol é pós-moderno por excelência e por antecipação. A sua verdade é pré-socrática. Ou sofista. A essência do jogo argumentativo do futebol pode ser compreendida na leitura de Jean-François Lyotard ou de Wittgenstein. Cada jogada é polissêmica e codificada. Exprime uma probabilidade. O relativismo é absoluto. É por isso que se pode afirmar categoricamente: volante apaixonado acaba na ala. Ou no banco. Alguém discorda?
Que seja com argumentos e demonstrações. O futebol não aceita bola fora. É rede.
Tudo isso eu escrevi há algum tempo.
Nada mudou.
Futebol exige competência e irreverência.
Faltaram as duas para o Inter em Abu Dhabi.
Assim não dá bi