O Juremir é gay
Num bar da Cidade Baixa, três caras se encontram:
– Eu te conheço de um algum lugar – diz um deles, de chapéu e charuto na mão, fazendo pose de bacana.
– Claro. Minha foto está no Correio do Povo de hoje – responde o outro, de óculos, exibindo um belo sorriso.
– Hum! Pelo jeito, tu estás te achando, hein? – observa o terceiro, com uma touquinha peruana enterrada na cabeça.
– Que baita promoção essa da Record-RS. Os assinantes do Correio do Povo podem levar três livros do Juremir Machado da Silva por insignificantes R$ 35,00. É mamão com açúcar, papinha de criança – diz o sorridente.
– Gosto mais do “Getúlio” – diz o cara do charuto.
– Gosto de todos – rebate o sorridente.
– “Solo” é o melhor de todos, disparado, tem ironia, sarcasmo, maldição – diz o da touquinha.
– Cada leitor levará para casa o seu Juremir – diz o sorridente, feliz com a oportunidade de mostrar seu lado.
– Esse Juremir é um baita marqueteiro – retruca o “peruano”, arrancando gestos de inconformidade.
– O marketing é uma ferramenta importante nesta época de aceleração e concorrência – pondera o sorridente.
– Esse Juremir não é gay, não? – questiona o “peruano”.
– Sem homofobia, tá? – indigna-se o sorridente.
– Durante a Era Vargas... – começa o do charuto.
– A minha foto ficou dez – vangloria-se o sorridente.
– Peço desculpas, mas a minha, com o charuto, arrasou.
– Ah, a vaidade, a vaidade dos caras – fala o “peruano”.
– Juremir é assim mesmo, tem quem ame e quem odeie. Ninguém fica indiferente a ele. O cara é um polemista nato, um serial-killer da palavra – explica o sorridente.
– Mas ele não é gay, não? – insiste o “peruano”.
– Polemista ou polêmico? – pergunta o do charuto.
– Juremir é o Michel Houellebecq brasileiro – diz o “peruano”, com um visível ar de provocação.
– Que nada! Houellebecq é o Juremir francês – afirma o do charuto, olhando firme para os seus interlocutores.
– Uma mistura de Michel Houellebecq com Lya Luft – diz o “peruano”, com um sorriso cínico no canto da boca.
– Pelo jeito, tu não conheces o Juremir – diz o do charuto.
– Ele é o cara – garante o sorridente.
– Mas ele não é gay, não?