Como todo mundo eu me senti compelido a pensar no caso do menino Bernardo. Como todo mundo eu pensei aquilo que mais dói: o óbvio. Como pode alguém planejar e executar a morte de uma criança? Como pode alguém abandonar ou menosprezar um filho? A conclusão, quando nos deparamos com essa situação, é sempre a mesma: a humanidade não é confiável e é capaz do pior. Exemplos da crueldade humana fazem parte da crônica diária da mídia. De certa forma, o noticiário jornalístico é um catálogo da iniquidade da mais cruel de todas as espécies. Certamente a única que tem consciência do mal que faz.
Essa leitura dos fatos, porém, tem o inconveniente da generalização indevida. A maior parte da humanidade não compactua com esse tipo de monstruosidade. A pergunta que fica, então, é outra: como pode uma parte da humanidade, um representante dessa humanidade, um ser humano praticar o inominável? Como pode, depois de tantos horrores, o abominável continuar a ser consumado? Cada vez mais eu me convenço de que só pode ser doença. Ao falar assim não sugiro que isso absolva os criminosos ou sirva-lhes de atenuante. Pode-se ser doente e ter consciência do mal feito sob a pressão da doença? Acredito que sim. Que mais seria? Que outra explicação?
A frieza absoluta diante do horror só pode ser uma anomalia, uma incapacidade de sentir como ser humano, uma falha no programa natural que faz do homem um ser construtor de sentido. Como viver depois de ter saltado o abismo da própria humanidade? Como se sentir humano depois dessa ruptura definitiva? O mal é certamente o grande mistério da existência. Assume formas inacreditáveis como o ódio a uma criança. De onde vem esse mal jamais debelado? Por que não pode ser contido ou previsto? Não há educação para esse tipo de crime. Tudo é perplexidade, angústia, desespero, medo e desolação.
A mídia precisa cobrir os acontecimentos. É o seu trabalho, sua função, sua sina. Diante de tantos elementos repugnantes, temos vontade de exclamar:
– Poupem-nos dos detalhes sórdidos!
Não há como fazer isso. A sociedade não nos poupa da sordidez. O lado sombrio da humanidade é uma ameaça permanente que inventa novas e terríveis formas de expressão. Grandes pensadores já se debruçaram sobre a questão do mal. Muitas respostas foram dadas. Há quem acredite que o homem nasce bom e é estragado pela sociedade. Há quem defenda que parte desse mal é natural. Forças ocultas movem os homens na claridade do dia.
O que dizer? O silêncio desce sobre nós como uma sombra. Ficamos aturdidos. Foi aqui, foi ali, foi conosco. Como aceitar? Como entender? Como esclarecer? Estamos todos de luto. O mal aconteceu entre nós. Tudo o que gostaríamos era de poder dizer nunca mais. O mal, porém, parece se infiltrar como a eternidade. Daí essa tristeza que, de repente, abate-se sobre todos nós.