Juremir Machado da Silva

O leitor fala: drogas e repressão

JUREMIR -

A propaganda deveria ser proibida 0 alcool causa problemas a curto e longo prazo (diferente do cigarro) Qual é a maior causa dos acidentes?/ brigas ?

Existe um incidência muito grande de alcoolismo na população - em geral não temos como saber esse percentual - mas nas comunidades fechadas (militares,

religiosos, algumas empresas organizadas, sabe-se  que isso é grande.

Nos pacientes hospitalizados, em torno de 30% dos pacientes (não que estejam lá diretamente devido ao álcoo)l, são usuários, ou suas doenças podem ter correlação com suas patologias.

Portanto, acho muito grave divulgar propaganda para consumo;

Homero Tocchetto.

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Bebidas, cigarros e outras drogas: proibir ou liberar?

Autor:  Dejalme Andreoli

O  Jornalista  Juremir  Machado da Silva em sua coluna do Jornal Correio de Povo de 29 de maio de 2013, pg. 2, tratou da problemática da liberação ou proibição do uso de bebidas alcoólicas, cigarros e outras drogas. O exemplo dos resultados  da Lei Seca nos Estados Unidos  teve um resultado claro: enriquecimento de gângsteres como AL Capone e aumento da criminalidade.    A proibição da comercialização e uso de drogas em geral, tem o mesmo resultado: enriquecer os traficantes e aumenta os índices de criminalidade.  Neste caso cria um problema maior, que é o de aumentar os gastos públicos com a repressão ao tráfico e medida de recuperação dos viciados.  Por estes argumentos a legalização da maconha tem uma defesa lógica. O seu consumo seria controlado por instituições públicas  e pelos médicos e psiquiatras e o seu comércio geraria receita pública que financiaria os tratamentos médicos. Este mesmo argumento vale para os bingos. Em um debate de rádio um cidadão argumentou que, se a maconha fosse liberada, os traficantes baixariam significativamente o seu preço e , assim, continuariam a controlar o mercado. A dificuldade deste argumento prevalecer é a de que os traficantes entram no mercado para ganhar muito. Isto só pode acontecer na situação atual, em que eles controlam o mercado, difundem o uso das drogas e aumentam os índices de criminalidade, trazendo custos enormes para as instituições públicas.   Com relação as drogas lícitas, bebidas(neste item incluem-se as garrafas de refrigerantes dois litros e meio) e cigarros, há uma explicação de natureza econômica que o jornalista Juremir esqueceu.  A produção do cigarro começa na lavoura, remunerando milhares de plantadores de fumo e gerando empregos no processo de produção e comercialização dos mesmos.  Há várias décadas os governos tem adotado políticas de incentivos a culturas alternativas na terras de plantação de fumo.  Tudo continua na mesma. Por quê? Em pequenas propriedades, onde a folha de fumo é cultivada, continua sendo a atividade econômica mais rentável. E o emprego gerado nas demais atividades do setor?  A legalização das vendas de bebidas alcoólicas e refrigerantes de tamanho grande ( este causando o aumento da obesidade) têm a mesma justificativa: geram lucros para a empresas e empregos para os trabalhadores. Pelo mesmo motivo, nas campanhas que tenho visto nos meios de comunicação de combate a obesidade, dificilmente será sugerido a proibição   de venda de refrigerantes em garrafas de 2 a 2 litros e meio. Acrescenta-se, ainda, a importância dos impostos pagos, que contribuem para   melhorar as finanças públicas.   Por tudo isto que foi argumentado acima, vemos,  novamente, a velha contradição entre atividades do setor público e setor privado.   A proibição gera, para o setor público,   uma conta que será paga pelos recursos orçamentários e, para o setor privado, elevados lucros que a satisfação de vícios proporciona.  As hipóteses estão explicitadas. Vamos para o debate.

net.dejalme@hotmail.com e   facebook.com/dejalme.andreoli

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Prezado Juremir,

Parabéns pela brilhante abordagem do tema do enfrentamento à questão das drogas lícitas e ilícitas, ‘Argumentos Al Capone’, na coluna de hoje, 29 de maio, no Correio do Povo.

Não posso dizer petulantemente de certezas, mas tenho forte intuição de que a relação entre o Estado e o Mercado de Drogas não se estabelece exclusivamente em termos de combate e repressão, gerando esta avalanche de contradições (individuais e institucionais) que se observa em nosso cotidiano.

Por exemplo, os principais locais de operação do mercado de drogas são conhecidos em qualquer cidade do mundo por qualquer pessoa que tenha interesse em identifica-los, e não apenas por usuários. É evidente que a polícia conhece todas essas ‘bocas’, assim como todo mundo sabe que se podem fazer apostas do ‘jogo do bicho’ na lotérica da sua rua (no mesmo território oficial chancelado pela Caixa Federal) ou na tabacaria da esquina. Mais fácil do que qualquer sofisticada operação Satiagraha da vida seria identificar as conexões entre a ‘boca’ e o ‘ponto do bicho’ e os escalões dos respectivos comandos centrais, bastando seguir algum indisfarçável ‘fio de Ariadne’ para sair desse aparente labirinto.

Acho que grande parte dos defensores da criminalização das drogas não consegue avançar numa análise crítica suficiente nem mesmo para identificar a gênese dos elementos morais e ideológicos embutidos nos seus argumentos. Ainda que se possa utilizar a noção marxista de ideologia nessa origem, prefiro situá-la na sua concepção enquanto construção de subjetividades que se orientam, nesse caso, pela docilização e domesticação dos corpos e dos prazeres, tal como se tentou e tenta fazer com as sexualidades humanas. No entanto, também acho que se pode ir bem além desta perspectiva e buscar visualizar o quanto a estratégia da repressão contém interesses políticos e econômicos nem sempre evidenciados, ou propositalmente negligenciados. (Às vezes me pergunto o que determina que não surjam matérias de jornalismo investigativo sobre as relações entre nossos clubes de futebol e a lavagem de dinheiro, ao estilo do clássico affair entre escolas de samba e bicheiros, ou que não se publiquem reportagens sobre a isenção de imposto de renda das igrejas. Seria por conta destes mesmos assuntos ‘propositalmente negligenciados’?).

Minha leitura é que o buraco é ‘mais embaixo’ (ou bem mais acima), a exemplo do que se pode analisar quanto ao jogo de interesses no mercado do século XIX explicitados na Guerra do Ópio. O que está em jogo parece ser quem controla quem: Estado ou Mercado? Pela grana que rola, o mercado (aparentemente) clandestino de drogas faz parte essencial do mercado ostensivo das trocas econômicas. Para além do campo ‘moral/ideológico’, mas de modo aí articulado, parece que prevalece a manutenção de um Estado que se pauta por uma lógica neoliberal de governo. Acho que prevalece um projeto que se apresenta difuso e contraditório, mas no qual as contradições são parte das engrenagens e necessárias ao funcionamento desses governos cuja consistência não passa pela coerência, mas por jogos de interesses poderosos.

Senão, como explicar que ao lado de tanta repressão internacional o mercado de drogas tenha se intensificado, ampliando seus lucros e os volumes financeiros que movimenta? Como explicar que as organizações criminosas pouco se afetaram com essa persistente politica repressiva, exceto em sua capilarização periférica? Quem vai ousar cortar a cabeça do meio dessa nova Hidra?

Por mais complexo e polêmico que seja, acho que o Estado deve descriminalizar o uso das drogas, assumir e regular esse mercado rentável, trazendo à luz, à transparência e ao debate esse óbvio mascarado.

Mais uma vez, obrigado por nos fazer refletir.

Abraço, José Eduardo Martins Gonçalves