Não gostei do mau exemplo dados por esses moradores de rua de São Paulo que entregaram para a polícia R$ 20 mil achados. É lamentável que isso aconteça neste momento especial da história brasileira em que estamos discutindo a necessidade de frear o desejo de transparência no trato da coisa pública em nome do sagrado direito à privacidade dos altos salários.
Esses moradores de rua que devolveram o dinheiro não passam de exibicionistas, de narcisistas, de egocêntricos.
Só queriam aparecer na mídia.
Se fossem pessoas de iniciativa e ambição, teriam usado o dinheiro para grandes projetos nacionais.
Por exemplo, um candidato.
Teria escondido a grana na cueca e a usado para financiar a sua campanha.
Eleito, apresentaria projetos de lei em defesa da transparência, da moralização dos costumes e da ética.
Vejamos o caso de um empreendedor.
Teria usado os recursos para alavancar um projeto de futuro.
Depois de rico, aplicaria parte dos seus polpudos lucros em obras filantrópicas.
Esse excesso de modéstia e honestidade dos moradores de rua que devolveram o dinheiro encontrado é humilhante para os muitos brasileiros, que não fariam o mesmo. Sem contar que destimula a ambição e contraria o fato de que quase toda acumulação primitiva de capital tem algo nebuloso para esconder ou reconstruir como mito ou meia verdade.
Fico imaginando o que teria acontecido com o dinheiro se tivesse sido encontrado numa cadeira de algum plenário de Câmara de Vereadores, de Assembleia Legislativa ou até do Senado. Por exemplo, na cadeira do José Sarney.
O que ele faria?
A quem entregaria?
Cogitaria, ao menos, que fosse do Carlinhos Cachoeira?
E se fosse encontrado pelo Paulo Maluf?
O que ele faria?
Apertaria a mão?
Enfim, fiquei decepcionado com esses moradores de rua.
Eles contrariaram o espírito do capitalismo na sua fase de desregulamentação máxima.
Perderam a oportunidade de investir.
Mostraram que pensam pequeno.
Pensam em honestidade, transparência é ética.
Que anacronismo!