Juremir Machado da Silva

O melhor ficou para trás

O melhor ficou para trás

Impossibilitados de sair da vila em pleno carnaval por anúncio divino do Juízo Final no dia seguinte, os palomenses recorreram às autoridades eclesiásticas pedindo que a medida fosse, ao menos, adiada para a quarta-feira de cinzas. Nada feito. Palomas sempre foi um lugar esquisito onde os mais fanáticos passavam o tempo acusando seus adversários de fanáticos. João Ideologia, xiita de direita, adorava acusar Paulinho Ideológico, radical de esquerda, de ideologia. Faltando algumas horas para o encontro final, numa esquina, os dois se viram:
– Fanático – gritou João Ideologia.
– O que é teu está chegando – respondeu Paulinho.
Na correria e no desespero com o fim de tudo, Maria Angélica pegou o filho no colo e correu para a igrejinha. Encontrou o padre preparando um palheiro na sombra:
– Toma que o filho é teu – disse ela.
E saiu correndo. Nívia, a gata mais gata do lugar, conhecida com a última virgem, vestiu-se para matar, atravessou a vila de salto alto, deixando todos de respiração suspensa, entrou no bar do Adão, casado e pai de oito filhos, parou na frente dele e sussurrou:
– É agora ou nunca.
O agiota Nildo da Prancheta saiu de revólver na cintura, entrou na casa do Nico Tropeiro e disparou:
– Ou tu me “paga” agora ou morre, que eu prometi não morrer sem receber tudo o que é meu, centavo por centavo.
Viventino, quase dois metros de altura, bigode espesso, pernas arqueadas de tanto andar a cavalo, chamou seu empregado Tisnado, um gigante ainda maior do que ele, virou-se de costas e, deixando cair a bombacha, suspirou:
– Vai, aproveita, que o melhor ficou para trás.
Lilico da Farmácia ajoelhou-se diante do irmão:
– Perdão, faz dez anos que tento te envenenar por inveja da tua saúde e longevidade. Ainda bem que fracassei.
O sempre otimista Candoca ergueu as mãos:
– Antes tarde do que nunca. Deve ser o progresso.
Tenso, olhos vermelhos, pálidos, visivelmente sem dormir, apareceu Gumercindo, o oráculo de Palomas. O tempo estava escoando. A vila continuava toda reunida:
– Perdão pela minha incompetência. Falhei. Era a minha obrigação ter previsto isso. Eu estava tentando prever o futuro do Kadhafi e não prestei atenção no que vinha.
– Certo, certo – pigarreou Candoca. – Mas, então, o Kadhafi cai ou não cai? Quanto tempo ele ainda aguenta?
Sério, muito sério, Candoca, diante do silêncio do oráculo, arriscou outra pergunta ainda mais delicada:
– Esse Juízo Final é universal ou particular?
– Traduz esse negócio – reclamou Viventino.
– Ele quer saber se o mundo todo está na mesma.
– Ora, tchê, Palomas é o mundo – disse Viventino.
– Era – falaram João Ideologia e Paulinho Ideológico.