Juremir Machado da Silva

O melhor policial de ficção científica num balaio da Feira de Porto Alegre

O melhor policial de ficção científica num balaio da Feira de Porto Alegre

Leitores “saldosistas”

Começou ontem a Feira do Livro de Porto Alegre. Beleza! Tem um pessoal prometendo aprontar. É gente do bem. Haverá manifestações com bandinha, cartazes, faixas e palavras de ordem. Nada como um movimento social para animar um evento. Ainda mais quando o movimento não pode ser “criminalizado”. Dou o meu apoio amplo, geral e irrestrito. Comigo não tem meio termo. O problema do livro no Brasil é preço e falta de divulgação. Custa caro e é sempre pouco divulgado. As editoras não têm dinheiro para publicidade. A mídia “empodera” sempre os mesmos. É por isso que o movimento dos Leitores “Saldosistas” faz sentido. O que eles querem? Balaios. Mais balaios. Muita coisa boa no balaio. Em outras palavras, pois é de palavras impressas que se trata, mais livros com descontos. Em bom português, mais bons livros baratos.
A editora Sulina vai dar o exemplo com uma bela invenção, o “puxador de balaio”. Assim como tem puxador de votos, os Tiriricas da vida, pode ter livro puxador de vendas no balaio. Só que o puxador da Sulina é o oposto do Tiririca: é bom demais. Uma obra-prima. A Sulina colocará no balaio, por R$ 10, um livro que custa R$ 70. Isso nem é balaio. É traseiro de popuzuda. Que livro é esse? “Raízes do mal”, de Maurice Dantec, traduzido por mim, que na França vendeu mais de meio milhão de exemplares. Um romance de ficção científica espetacular. Por que essa promoção? Porque o livro tem erros de digitação. Um exemplo: em lugar de “não” aparece “nao”. Em vez de “psicose”, que é grave, “psicoce”, mais grave. E por aí vai. Enviamos para a gráfica o arquivo sem a revisão. Na França, esse tipo de problema faz a alegria dos leitores. As livrarias colocam um selo amarelo no exemplar, “livro de ocasião”, e baixam o preço. Pronto.
Dantec é tão bom quanto Houellebecq. A sua capacidade descritiva é assombrosa. Deu azar. Foi traduzido por mim. Isso mata um livro no Brasil. “Falha” de S. Paulo, Veja, Estadão e “Globo”, cujos resenhistas me detestam, silenciam sobre qualquer obra que tenha o meu nome. Ou dão uma notinha insignificante para evitar qualquer acusação como esta que estou fazendo agora. Os gaúchos poderão, portanto, comprar “Raízes do mal” por uma ninharia. É um presente de Natal antecipado. Estou com vontade de comprar todos e distribuir para os meus amigos. Amo esse livro. Sinto um orgulho danado por tê-lo traduzido. É o mesmo orgulho que sinto por ter traduzido Houellebecq e Baudelaire. Eu sonho com feiras em que livro algum custará mais de R$ 10 reais. Se dependesse de mim, todos os meus livros custariam R$ 9.99. Já nasci “saldosista”. Tenho o balaio virado para a lua. Sério!
Dantec, com “Raízes do mal”, fez um pastiche genial dos gêneros policial e de ficção científica. É um mosaico, uma história psicológica de serial-killer com direito a ironia, inteligência e boas doses de angústia. Ainda acordo no meio da noite com cenas do livro vibrando na minha cabeça, prova de que o poder narrativo de Dantec ficou impregnado na minha mente. Poucas vezes me deparei com uma potência descritiva tão radical. Aos balaios!