Juremir Machado da Silva

O país dos casuísmos e das tetas

Tudo muda. Tudo, no Brasil, permanece igual.

Quem pode, mama. Quem não pode, quer mamar.

Houve um tempo em que era comum se falar na dignidade de certas funções. A justiça tinha pompa em qualquer circunstância. A política elevava o sujeito. Nos tempos que correm – melhor, voam –, a política rebaixa e a justiça se rebaixa. Volta e meia, porém, políticos e magistrados queixam-se da desmoralização da justiça e da política pelo tratamento desrespeitoso da mídia, o que seria péssimo para a democracia e corrosivo para a política. Agora, entre nós, pode alguém levar, de fato, a sério a política e a justiça no Brasil?

A culpa é da mídia? Só um ingênuo compraria essa tese cada vez mais capenga.

A decisão da Câmara dos Deputados de voltar a pagar passagens para cônjuges de parlamentares é um escândalo que não se esconde da luz do dia. No caso, o saque aos cofres públicos não exige um esquema clandestino nem operadores secretos. O presidente da casa, deputado Eduardo Cunha, na caça aos votos dos colegas para chegar ao topo e derrotar o governo, comprometeu-se com as esposas dos potenciais eleitores a bancar-lhes voos para Brasília. As senhoras trataram de seduzir os seus esposos. Cunha deu um banho na concorrência. A legalidade da medida não existe. O que importa a legalidade quando se tem o poder da caneta e a cara-de-pau para assumir o ato como legítimo? A mídia jamais conseguiria fazer tanto pela desmoralização dos políticos quanto Eduardo Cunha e seus coleguinhas de chupeta.

O juiz que mandou recolher e leiloar bens do empresário Eike Batista é do time de Cunha. Encontrou um jeito de passear de Porsche. Quem garante que não pretendia arrematar, por meio de um testa de ferro, os seus objetos de desejo no leilão que fixou a toque de caixa? Qual será a punição para ele? O afastamento do processo de Eike é só um puxão de orelha. Depois do auxílio-moradia para juízes que possuem várias residências próprias, a dignidade da função ficou abalada.

A mídia nunca seria capaz de prejudicar mais a imagem da justiça do que o auxílio-moradia e o juiz do Rio de Janeiro dando uma voltinha no brinquedo de luxo do empresário falido e fanfarrão.

Eduardo Cunha afunda a Câmara de Deputados num momento em que já falta buraco para terminar de enterrá-la. O juiz Flávio Roberto de Souza enlameia a sua categoria quando ela mais precisa dar bons exemplos. O Brasil semeia casuísmos. O governo federal estimulava a criação de novos partidos para enfraquecer o PMDB, seu aliado no poder. A Câmara de Deputados de Eduardo Cunha bloqueou a estratégia não por virtude, mas para evitar o surgimento de concorrentes e frustrar a jogadinha de Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, pretende-se aprovar uma emenda constitucional, chamada de “PEC da bengala”, adiando a compulsória dos ministros de STF dos 70 para os 75 anos de idade. A ideia é impedir que Dilma Rousseff possa indicar mais quatro ministros até o final do seu mandato. Dá para acreditar nessa gente?

A pompa foi para o brejo. A dignidade manda lembranças. As circunstâncias imperam.

A ordem é chegar primeiro ao pote. Quer dizer, ao úbere.

Corram.