Juremir Machado da Silva

O pato (a pedido de um leitor)

O pato (a pedido de um leitor)

Estou dizendo que é verdade! Podem não acreditar, mas é a pura verdade. Ouvi esta conversa, ontem, em Paris, no

restaurante Polidor, quando fui comer um “confit de canard” (coxa de pato) e tomar um vinho nacional, um vinho tinto da

casa, uma jarrinha. Havia uma família brasileira – marido, mulher e um casal de filhos – na mesa ao lado. Confesso que

me fingi de morto, até por estar sozinho, para ter uma idéia de que como se comportam os nossos patrícios no exterior.

Foi legal.

– Vamos pedir pato – disse o pai com certa hesitação.

– Pato!? – reagiram em uníssono os dois filhos.

– Não quero comer pato – afirmou o guri, de uns 12 anos.

– Quem vai pagar o pato? – zombou a guria, uns 14 anos.

– Não sejam patetas – ralhou a mãe, certamente inspirada pelo pato, embora com o ar mais sério do planeta.

– Pateta é o pato, mãe – debochou o guri sardento.

– Tão pateta é o pato que está na panela, disse a guria.

– Chega. Pato é muito bom, é uma comida tradicional.

– Bom, pai? O pato não deve achar isso bom.

– Problema do pato, Luana – irritou-se o pai.

– Pato com problema não é bom, pai – insistiu a guria.

– Claro que o problema é do pato. De quem mais ia ser? É ele é mesmo, o pobre, quem paga o pato – emendou o guri,

cutucando a irmã, orgulhoso da sua piadinha.

– Quem vai pagar o pato é o pai – devolveu a guria.

– A mãe diz que o pai sempre paga o pato, Luana.

– É mesmo? Ela diz isso? – sobressaltou-se o marido.

– Não seja pato, Rui. Eu só disse isso uma ou duas vezes. Os meninos estão “zoando” com você. Vamos ao pato.

– Não gostei dessa história de pagar o pato, Roberta.

– Falamos do pato em casa, Rui. Agora vamos comer pato.

– Se o pai não gosta de pagar o pato, então vamos pedir outra coisa – aproveitou o guri, cutucando a irmã.

– Pato, é pato – esbravejou o pobre Rui com autoridade.

– Claro que pato é pato, pai. Seria o quê? Peru?

– Chega, Luana. Pára de fazer o pai de pato.

– Eu, hein? É você que diz que ele tem pé de pato.

– E é você que suspira sempre que vê o Pato.

– Que Pato é esse? Quer dizer, que papo é esse?

– Ora, mãe, a Luana adora o Pato? É o amor da vida dela.

– Luana ainda é muito nova para amar algum Pato.

– Mesmo que seja o Alexandre Pato, mãe.

– Mesmo que seja o rei dos patos. Sua irmã é criança.

– Criança, eu? Que patetice a sua, mãe. Nossa!

– Basta, gente – irritou-se o pai. Ou comemos pato aqui e gora ou ninguém vai ver o pato amanhã de manhã.

– Azar! Não sou criança para ir à Disney. Não estou nem aí para o pato de hoje e menos ainda para o de amanhã.

– O Pato da Luana é outro, pai. E nem é o Alexandre.

– Cala a boca, pirralho. Ou vai mesmo pagar o pato.

– Paris vale um pato – disse a mãe, sorrindo, como se fosse para uma platéia culta e acostumada a paráfrases.

– Paris vale uma missa, essa é a frase histórica – disse a guria com um ar de maldade típico dos adolescentes.

– Filha, você aprendeu isso na escola? Que bom!

– Claro que não, né, mãe? Li na wikipédia antes de vir.

Foi aí que a autoridade paterna se impôs, definitiva e solenemente. Com voz firme, Rui acabou com a conversa:

– Chega de patacoada.

Paguei o pato e fui dormir. Que penas!