O peixe, o tomate e a sociedade "midiocre"
Qual a relação entre o peixe, o tomate e a sociedade "midiocre"?
Em primeiro lugar, uma salada.
Tomate e peixe sempre aparecem na televisão.
São celebridades na mídia.
O Correio do Povo está com mais uma promoção de um livro meu: “A sociedade ‘midiocre’ – passagem ao hiperespetacular – o fim do direito autoral, do livro e e da escrita”. O título assusta. Um rapaz, estudante de Direito, me perguntou na rua com um ar quase apavorado:
– Que por...caria é essa de hiperespetacular?
Expliquei. Saiu meio tonto.
Na verdade, é muito simples: passamos do ponto. Uma senhora de bengala me parou na porta do lotação. Foi direto ao que interessa:
– O senhor é mais bonito ao vivo que na televisão.
Concordei. Por elegância, não fiz qualquer comentário. Mas fiquei com vontade de elogiar a agudeza da sua visão. Outra senhora culta, também no lotação, abordou-me cheia de preocupações altamente pertinentes:
– O livro vai acabar mesmo?
– Fique calma. Não só o livro, mas a escrita.
– Que horror!
Tentei explicar-lhe a situação.
Meu livro tem 221 fragmentos sobre o estado atual da cultura. Pelo twiiter, tive uma polêmica impagável sobre o termo “midiocre”.
– É medíocre que se escreve, sua anta, não “midiocre” – postou uma moça em defesa da integridade do português.
– Eu sei, eu sei, claro, mas estou usando um neologismo: mídia + mediocridade – respondi muito didaticamente.
– Neologismo! Me engana que eu gosto. Sei, sei...
Não consegui convencê-la. A minha criatividade publicitária sofreu esse arranhão. Eu estava me considerando um novo James Joyce. Fui rebaixado a analfabeto. Todas as minhas convicções, teorias, teses, obsessões, loucuras, medos, que são muitos, tudo o que penso da cultura no mundo atual, esse mundo da mídia, está nesse livro que pode ser lido no banheiro, no lotação e na praia. O papel é de ótima qualidade. Os fragmentos podem ser disponibilizados no twitter. O preço da promoção mal banca uma farta salada de tomate para uma família grande. Fui à feira com a Cláudia. O tomate ainda continua caro, embora tenha baixado. Mas meu livro está barato. Muita gente me critica por esse tipo de autopromoção. É pelo bem dos leitores.
Já expliquei outras vezes: um maldito é um pistoleiro solitário. Ou atira primeiro, como Django, ou morre. Prefiro atirar. Maldito é o escritor que precisa vender o seu peixe. Se não o fizer, pisa no tomate. Se o fizer, engole espinha de peixe. Melhor ter vinho branco ao alcance dos lábios.
Escrever é um vício. A ciência ainda não desenvolveu um medicamento tarja preta capaz de livrar a gente dessa dependência terrível e compulsiva. Nos últimos três anos, venho pesquisando sobre a morte de Jango. Li mais de dez mil páginas sobre o assunto. Quando vi, tinha 530 páginas escritas sobre o tema. Comecei a ir à feirinha de sábado na José Bonifácio para ver se escrevo menos, caminho mais e encontro meus semelhantes.
Na primeira ida, gostei do ambiente, participei de uma conversa surpreendente com uma católica e um verdureiro cético sobre a eleição do papa e tive uma ideia: um livro sobre o preço do tomate.
A sociedade "midiocre" está à venda pelo (51)32161600 ou pelo atendimento@correiodopovo.com.br
Papel de livro não serve para enrolar peixe nem tomate.
A maldição é não ter vinho.
Eu sou um escritor "midiocre": troco meus livros por tomates.
E vendo o peixe na feira virtual.